"Débora"
A Lorena tinha tornado a minha vida absolutamente mais fácil. Minha mãe já não disputava a minha atenção com o meu marido e nem parecia a senhora rabugenta que se recusava a comer e fazia cena por qualquer coisa. Mas não foi só a minha mãe que se encantou pela Lorena, todos nós nos afeiçoamos a ela.
Eu estava sentada na varanda com a minha mãe vendo o entardecer cair lentamente. Eu observava o pátio de pedras enquanto a minha mãe contava uma de suas histórias antigas e o meu coração de mãe transbordava de uma satisfação imensa vendo a Lorena e o Lucas caminhando juntos por ali.
A Lorena caminhava devagar, tocando cuidadosamente a barriga perfeitamente imensa, nítida e arredondada do seu oitavo mês de gestação. Ao lado dela, com uma gentileza e uma paciência tão típicas dele, estava o meu filho Lucas. Ele a ia dar caminhadas pelo nosso jardim todas as tardes, dizendo que fazia bem ao bebê. Havia uma cumplicidade de alma tão linda e pura nascendo entre aquela amizade que me fazia suspirar. O Lucas era o porto seguro perfeito para ancorar uma mulher como a Lorena, atirada na bagunça que o orgulho do Érick Albelini havia deixado na vidinha dela. Eles pareciam se entender muito bem e quase sonhava com a Lorena como nora, mas eu sabia que a Heloísa não deixaria o filho jogar a felicidade fora assim.
O som ruidoso do meu celular me fez abandonar os meus pensamentos e a minha contemplação. Eu olhei para a tela e sorri, me levantei e fui para longe dos ouvidos curiosos da minha mãe.
- Débora? É a Heloísa. - A voz calma, mas com um toque de alegria da minha amiga mais querida ecoou na linha. - Como está tudo por aí? E a minha nora e o meu neto? - Ela perguntou ansiosa e eu dei uma risada.
- Neste momento ela não é sua nora, Helô, e eu estou altamente tentada a ficar com ela para o meu filho. Até porque, eu continuo achando que ela espoera uma menininha, mas ela insiste em não saber.
- Nem brinque com isso, Deb! A Lorena nasceu para ser uma Albelini. E quanto ao bebê, menino ou menina, eu já sou a avó mais coruja do mundo. - A Heloísa ria no telefone.
- Sua egoísta! - Eu brinquei e ela riu ainda mais. - Eles estão bem, Helô. O Lucas tem monitorado essa gravidez e a saúde da Lô bem de perto. Eles ficam lindos juntos. - Eu suspirei provocando a minha amiga que fez um barulho de desdém, me fazendo rir. - A Lorena traz luz para esta casa, ela é uma mulher de valor irrepreensível, todos nós temos um imenso carinho por ela. Eu vou sentir falta dela durante a licença maternidade, mas ela não quer ficar aqui para cuidarmos dela.
- Quem vai cuidar dela sou eu, Débora. E eu lamento te dizer, mas ela não vai voltar a trabalhar para você. - A Heloísa sacramentou com uma seriedade que me fez suspirar. Eu conhecia a minha amiga e sabia que ela já tinha planos.
- Você já arrumou tudo, não é?
- Sim, minha amiga. Não fique brava comigo, mas eu te avisei que a situação da Lorena aí era temporária.
- Eu sei. Você vai me contar o que preparou para ela?
- Claro! Bem, você sabe, a Lorena é contadora e aquelas ações que o seu marido me ajudou a comprar do Grupo Albelini, lembra? Pois eu já estou fazendo os trâmites para transferí-las para a Lorena. Assim que o bebê nascer, a Lorena assume uma cadeira oficial com direito a voto no Conselho de Administração da holding.
- Você vai colocar os dois frente a frente e nenhum deles vai poder fugir. Admiro a sua audácia, Helô. Espero que eles não fiquem bravos.
- Eles se amam, só precisam de um empurrãozinho.
- Bom, você sabe o que faz, sempre soube. E a Lô merece ser feliz e ter esse patrimônio resguardado para o bebê. - Eu suspirei. - Bom, acho que tenho que começar a procurar uma nova dama de companhia para a mamãe. Sinto que os meus dias de paz estão contados.
- E você acha que eu te deixaria na mão? Jamais, minha amiga! Eu já providenciei alguém que eu sei que D. Cecília vai adorar. - A Heloísa deu um riso convencido. - Inclusive é uma pessoa que a Lorena conhece, é uma das moças que a minha organização ajudou. Ela já provou o seu valor, Débora, é confiável, honesta, tem bons sentimentos e já passou por poucas e boas, mesmo assim, ainda mantém uma leveza e uma alegria contagiante. Acho que ela é o que a D. Cecília precisa agora que a Lorena já a tirou do escuro.
- Bom, se a Lorena conhece, talvez a minha mãe aceite com mais tranquilidade. É outra das moças da boate?
- Sim, Débora, é a Morgana. Ela era garçonete, trabalha duro, tem fogo nas veias, é de total discrição, você não vai ter com o que se preocupar. A Morgana vai assumir o posto de forma permanente na sua casa e será tão boa e dedicada quanto a Lorena foi. Se você concordar, eu a envio amanhã, assim a D. Cecília já vai se habituando a ela.
- Isso é ótimo, pode mandá-la sim. Eu confio em você, Helô, mas não pense que nós vamos sair da vida da Lorena porque isso eu não aceito. Gosto muito dessa moça e quero manter contato com ela.


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