Entre um olhar e outro, o ar começou a esquentar de forma sutil, quase imperceptível.
Os dois sentiram que havia algo fora do lugar.
Henrique foi o primeiro a desviar o olhar. Pegou a cerveja e tomou um gole grande, o pomo de Adão subindo e descendo de maneira provocante.
Carolina se levantou às pressas, o coração batendo descompassado. Passou as mãos pelos dois lados do pijama, procurando bolsos que não existiam.
— Eu… Eu vou pro quarto prender o cabelo.
Ela entrou quase correndo, pegou um elástico e prendeu os cabelos atrás da cabeça.
Quando voltou, Henrique estava recostado no encosto do sofá, com um dos braços apoiado ali. Os dedos longos e bem desenhados giravam distraidamente uma lata de cerveja, enquanto a outra mão segurava o celular.
Aquele calor estranho tinha se dissipado.
Carolina voltou a se sentar no tapete, de pernas cruzadas, bebendo e comendo os espetinhos.
Henrique continuava olhando o celular.
Ela virou a cabeça.
— Você não vai comer nada?
Henrique ergueu o olhar e largou o telefone.
— Me dá um espetinho de carne.
Carolina pegou um de carne bovina e estendeu para ele.
Henrique recebeu, inclinou o corpo para frente e começou a comer com calma.
— É coisa do trabalho que tá te deixando assim? — Perguntou de repente.
O incômodo que Carolina vinha enterrando no fundo do peito foi puxado à tona. Ela ficou em silêncio por um instante, depois soltou um suspiro leve e tomou um gole grande de cerveja.
Talvez falar aliviasse. Se continuasse guardando tudo, teria que digerir sozinha, aos poucos. E isso doía demais.
— É… Peguei um caso novo. — Começou. — Um sujeito desses que conta uma história pra comover qualquer um. Disse que era pobre, sofrido, abandonado, que tinha se acidentado no trabalho, não recebeu indenização nenhuma e ainda acabou sendo demitido. Eu vi ele naquele estado… Fiquei com pena e acabei oferecendo assistência jurídica, sem cobrar honorários.
Ela fez uma pausa breve, mas logo continuou, a raiva voltando à voz.
— No fim das contas, o desgraçado ainda foi mais baixo. Escondeu de mim que, na verdade, tinha saído pra se prostituir em horário de trabalho. Foi atropelado na rua e, por causa disso, a empresa mandou ele embora.
Carolina respirou fundo, sem desacelerar.
— Um lixo desses ainda queria indenização da empresa. Dá vontade de perguntar por que não morre logo. Escondeu a verdade, me enganou pra eu entrar com o processo… e quando perdeu, começou a me xingar. Disse que eu era incompetente, que mulher de cabelo comprido é burra, que eu devia largar tudo e casar logo. Na hora, eu juro que tive vontade de dar dois tapas bem dados na cara dele.

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