“José Miguel”
Era tudo o que eu não precisava no escritório, a Carmem e a Eva batendo de frente. Era como se o Heitor tivesse feito uma profecia, mas errado ele não estava, a Srta. Sanchez estava me fazendo quebrar muitas regras.
- Carmem, abaixe a voz! Você está no meu local de trabalho, não estamos em casa onde vocẽ grita, esperneia e faz o escândalo que bem entende. – Eu avisei e ela estreitou os olhos para mim.
- Você perdeu completemente a decência, José Miguel! Depois de tudo o que já passamos, depois de tudo o que já sofremos juntos, você está se esquecendo das promessas que você fez! Você jurou, José Miguel, você jurou solenemente, pela memória deles que não haveria outra mulher jamais. – A Carmem estava jogando tudo na minha cara de novo.
- Carmem, aqui não é lugar para termos essa conversa! – Eu avisei, mas ela deu uma risada amarga.
- Nunca é o lugar, nunca é hora, você nunca tem tempo. Sempre uma desculpa! E foi justamente pelas suas mentiras, cobertas por desculpas estúpidas que aquele maldito acidente aconteceu! Ou você se esqueceu, José Miguel? Você não se lembra mais que os matou? Não se lembra mais deles? Fala a verdade, você nunca se importou! – A Carmem já tinha falado isso pra mim tantas vezes que parecia um discurso decorado.
- Carmem, chega! Você sabe melhor do que ninguém do quanto eu me arrependo daquela noite, o quanto eu me culpo por ter deixado as coisas chegarem àquele ponto e se eu pudesse eu daria a minha vida pelas deles. Mas aqui é o meu trabalho, nós temos um acordo e você não deveria vir fazer os seus escândalos aqui! – Eu a lembrei, mas ela não parecia se importar.
- Um acordo que você não cumpre! – Ele gritou pra mim.
- Fala baixo, Carmem! – Eu falei entre os dentes. – Você gosta muito da sua vidinha confortável e cheia de luxos que eu banco, não gosta? Então é melhor sair daqui e não vir mais ao meu trabalho, porque se eu perder o emprego por causa dos seus escândalos, acabou a mesadinha poupuda que eu deposito para você todo mês.
- Ah, claro, vai jogar na minha cara o dinheiro. Mas não se esqueça, José Miguel, é muito justo que você mantenha a minha vidinha confortável e cheia de luxos, não se esqueça de todos os sacrifícios que eu já fiz por você! – Ela falou cheia de mágoa e rancor.
- Não, Carmem, eu não me esqueço. No entanto não vou aceitar os seus ataques aqui na empresa. Vá para casa e à noite conversamos. – Eu tentei respirar e me acalmar para não jogá-la pela janela.
- À noite? Em casa? – Ela deu uma risada. – Isso se você for para casa! Ou se esqueceu que não dormiu em casa de novo? Aposto até que estava na cama com essa lombriga enfeitada que você diz que é sua funcionária.
- Chega, Carmem! Chega! – Eu bati a mão na mesa. – Eu te proibo de desrespeitar a Srta. Sanchez! Ela é uma funcionária da empresa, trabalha sob as minhas ordens e você não vai desrespeitá-la! – Eu perdi completamente a paciência. – Agora, Carmem, sai daqui e volta pra casa, à noite eu estarei lá e nós poderemos conversar… ou você poderá gritar a noite inteira se quiser. Mas agora, Carmem, só vai embora e me deixa trabalhar.
Mas enquanto eu falava a Carmem percebeu a sacola sobre a cadeira em frente a mesa e puxou lá de dentro a minha camisa.
- Eu nem preciso de muito esforço, dá pra sentir o perfume vulgar daqui, nem precisava da marca de batom no colarinho. – A Carmem jogou a camisa sobre a mesa, deixando bem aparente a marca de batom a qual ela se referia, só um traço fino e sutil, mas ela percebeu. – Outra amante, José Miguel. Não dá para negar, está aí a prova. Dessa vez você não pode dizer que eu estou ficando louca.
Ela deu as costas e foi até a porta, mas antes de sair se virou pra mim.
- Esteja em casa para o jantar, nós precisamos conversar. Se você não se lembra, no próximo sábado… - Mas eu não deixei que ela terminasse, não precisava.
- José Miguel, para! Isso já tem tempo demais! A Carmem não pode continuar te jogando essa culpa! Aliás, isso nunca foi culpa sua.
- Você nunca vai entender, Matheus, eu estava no volante, meus filhos… - O Matheus me interrompeu, ele conhecia a história e conhecia todos os demônios que me assombravam.
- Pode parar! Foi ela quem puxou o volante, ela tirou o controle do carro de você! Você nunca teve culpa por aquilo! Cara, me escuta antes que você fique louco ou se mate, acaba logo com essa relação doentia que você e a Carmem têm!
- Eu não posso abandoná-la, Matheus. Não depois de tudo. Ela quase se matou, lembra? Ela tomou todos aqueles comprimidos e…
- Tudo cena pra te comover e ninguém nunca me convencerá do contrário! José Miguel, você precisa se livrar dessa carga que você está carregando, você precisa entender que foi um acidente. – Ele me aconselhava a mesma coisa há anos. – Ah, quer saber, esquece a megera da Carmem. Anda, me conta, eu vim aqui só pra saber como foi com a Evita ontem.
- Matheus, você não presta, né?!
- E você é meu melhor amigo justamente porque vocẽ presta demais, é pra balancear a minha personalidade.
Ele deu uma risada, ele tinha razão, talvez as nossas personalidades se complementassem, mas isso não mudava o fato de que eu era casado, tinha uma promessa que deveria manter, precisava cuidar da Carmem e, definitivamente, aquela noite, aquele acidente, nada teria acontecido se eu tivesse ido pra casa depois do trabalho. Mas eu não fui e o acidente aconteceu. E o que o Matheus não entendia é que desde aquele dia eu estava morto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...