“José Miguel”
Eu saí da ambulância meio trôpego com toda a confusão e corre corre. Os paramédicos tentaram me segurar e me fazer deitar na maca de novo, mas eu precisava estar com ela. Eu corri atrás dos médicos pela emergência do hospital e os ouvi gritando que não dava tempo. Mas de quê não dava tempo? Havia muitos médicos e enfermeiros ao redor da maca e muito sangue escorrendo para o chão, gente entrando e saindo, passando por mim como se eu fosse um fantasma e a cortina foi puxada.
Eu senti a mão no meu ombro e a Carmem estava ali, frenética, chorando, perguntando repetidamente o que tinha acontecido. Mas eu não respondi. Eu sentia como se estivesse submerso em água, sem conseguir respirar, ouvindo vozes abafadas e ninguém me puxava para a superfície. Até que aquele médico saiu, aquela voz que eu nunca vou esquecer, aquele rosto compassivo, como se ele não quisesse falar, mas não tivesse escolha.
- Lamento, mas não tenho boas notícias! Nós tivemos que realizar o parto, mas devido ao acidente, o choque na barriga quando ela foi arremessada, a perde axcessiva de sangue… nós tentamos de tudo, mas os bebês não sobreviveram. Eu sinto muito pela sua perda.
- NÃÃÃOOO! – Eu acordei gritando outra vez. Como sempre, banhado em suor e lágrimas.
Eu me sentei na cama e passei as mãos no rosto. Eu nunca esqueceria aquele médico de cabelos grisalhos, olhar indulgente e modos gentis, sua voz sutil e calma, falando devagar, como se quisesse suavizar o impacto da notícia. Eu nunca esqueceria aquela! E quando ele terminou de falar, o meu grito era de dor, como se estivesse sendo ragado por dentro. E dormindo ou acordado eu ainda sentia aquela dor.
E aquele pesadelo se repetia todas as noites, às vezes um detalhe a mais ou a menos, às vezes a discussão com a Cora na porta do restaurante, às vezes o tapa que a Carmem desferiu no meu rosto quando o outro médico se aproximou e disse que a Cora não sobreviveria, mas que por algum milagre ainda estava consciente e queria falar apenas com a mãe.
Aquele pesadelo se repetiu quase todas as noites nos últimos cinco anos. Quase! Foram apenas três noites em que eu dormi e não tive aquele sonho horrível, apenas três noites de sono tranquilo em cinco anos. E todas elas eu passei com a Srta. Sanchez no meu apart.
Eu olhei para o relógio digital na mesinha de cabeceira, eram quatro e vinte da manhã. Eu nunca voltava a dormir, eu tinha certeza que se fechasse os olhos novamente veria a Cora morrendo em minha frente enquanto eu jurava me manter fiel a ela e cuidar da Carmem para o resto da vida.
Eu me levantei, tomei um banho gelado, me vesti e saí do meu quarto. Eu estava indo correr. Assim que passei pelo aparador no corredor eu vi as fotos ainda ali e vi cada uma nas paredes e sobre os móveis da sala, inclusive duas que não faziam parte antes, pareciam ter sido ampliadas, uma do meu casamento com a Cora e uma do primeiro ultrassom. Eu fechei os olhos e respirei fundo.
- Dessa vez não, Carmem! Eu não vou ceder, isso está indo longe demais. – Eu murmurei para mim mesmo e saí para correr, assim que voltasse eu resolveria isso.
Enquanto eu corria, com os fones no ouvido, as imagens daquela maldita noite ainda vivas queimavam o meu cérebro. E geralmente eu corria até a exaustão, até que aquele pesadelo desvanecesse o suficiente para que eu conseguisse fazer mais do que sentir aquela dor. Esse era o plano.
Mas aí entrou na minha playlist a música "Paradise" (feat. Dermot Kennedy), do Meduza, eu não me lembrava dessa música na minha playlist, no entanto, antes que o primeiro verso da música terminasse, as imagens da Srtas. Sanchez gemendo em minha boca invadiram completamente a minha cabeça, como se o meu cérebro fosse uma televisão e tivesse simplesmente trocado de canal. Eu parei por um minuto, coloquei as mãos nos joelhos, respirei fundo de olhos fechados e ela continuou lá, me desafiando a esquecê-la.
- Foda-se! Pelo menos na minha cabeça eu posso ter essa mulher!
Eu peguei o celular no bolso, coloquei a música para repetir e voltei a correr. E pelo resto do tempo em que eu estava correndo, eu tive apenas a Srta. Sanchez nos meus pensamentos.
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