“José Miguel”
Eu parei ao lado da cama da Carmem e a observei dormindo ali tranquilamente enquanto havia causado o caos no meu mundo outra vez. Era como se ela me condenasse a carregar mais uma culpa, como se ela testessa até onde eu suportaria.
Da outra vez, quando ela tentou tirar a própria vida, eu me sentei ao lado da cama dela e senti mais do que a culpa, eu senti pena, um certo desespero, uma tristeza profunda diante da dor dela em continuar viva depois de perder a filha.
Mas dessa vez eu sentia tão diferente! Eu não me sentei, eu a observei de pé e notei dessa vez algo que eu não tinha notado antes, sua expressão estava tão serena, tão calma, eu diria que havia quase um sorriso em seu rosto. E isso foi meio perturbador pra mim, porque da primeira vez a expressão dela era de dor, mas agora havia serenidade.
Mas não era só a Carmem que parecia diferente, eu me senti diferente. Era como se uma parte de mim sentisse a culpa pesando cada vez mais, a responsabilidade pela dor e desespero dela, como se a minha mão tivesse levado à boca dela aqueles comprimidos. Mas essa parte parecia estar sendo confrontada por uma outra parte dentro de mim que parecia só sentir o quanto a Carmem era egoísta em seus atos, em suas palavras, sempre tentando colocar um peso ainda maior sobre a culpa que eu carregava. E essa parte de mim parecia gritar que o meu lugar não era ali. Era como se eu estivesse dividido em dois e aprisionado em um único corpo e isso me sufocava. E, de repente, aquele quarto me sufocava!
Eu saí dali afrouxando a gravata, apenas caminhei pelo corredor, tentando respirar melhor e ordenar os meus pensamentos. Quando eu cheguei ao fim do corredor, sem que eu tivesse me dado conta, eu estava diante da capela do hospital e eu apenas entrei e me sentei, porque ali parecia ser um outro lugar, porque só parecia um lugar qualquer que me tirava daquele ambiente sufocante que era o hospital. Eu me sentei e afundei o rosto nas mãos.
- Fica tudo muito difícil quando encaramos a nossa mortalidade. – Eu ouvi ao meu lado uma voz masculina baixa e suave, num ritmo lento e entonação acollhedora, era quase como um som relaxante.
- É mais difícil encarar a mortalidade dos que estão a nossa volta. – Eu respondi e olhei para o lado.
Um homem grande e forte, de pele negra e cabelos bem cortados, usando um cavanhaque muito bem aparado e óculos redondos com armação discreta, estava sentado ao meu lado. Ele vestia um terno preto e camisa branca. Seus olhos escuros pareciam olhar através de mim. Ali, envolto pelas luzes amarelas indiretas da capela e pelas velas acesas na parede lateral, eu senti como se olhasse para um daqueles anjos que a minha mãe sempre dizia que me guardavam do mal.
- Isso é bem difícil mesmo. É muito grave? – A pergunta dele me fez pensar no quão grave era.
- Na verdade eu não sei! Ela tomou um monte de comprimidos, vai ficar bem, mas é a segunda vez que faz e eu não sei se vai fazer de novo e se da próxima vez vai conseguir. – Eu nem sabia porque estava falando sobre aquilo com um estranho, mas eu só falei.
- E eu posso perguntar quem é ela?
- Minha sogra.
- Imagino que sua esposa esteja bem aflita.
- Ela já morreu! – Eu respondi com um certo amargor na voz.
- Entendo.
- Isso explica muita coisa, não é?!
- Não, não explica nada. – Ele sorriu, um sorriso gentil e tão acolhedor quanto o tom da sua voz. Tudo naquele estranho ressoava paz e tranquilidade, acolhimento e compreensão, tudo o que eu não tinha na minha vida há muito tempo. – O ser humano age por tantas razões e às vezes suas razões não são as mais óbvias e geralmente não são as mais nobres.
Eu olhei para ele confuso, porque para mim era óbvio que a atitude da Carmem tinha tudo a ver com a perda da filha, mas aquele estranho não conhecia toda a história. Então ele continuou:
- Sabe, geralmente as pessoas que fazem isso não fazem porque realmente querem morrer, fazem porque já não suportam a dor que sentem, querem apenas que não doa mais e a morte lhes parece o único caminho. Mas há muitos casos em que as pessoas fazem de forma incompleta, sabe?! Fazem mais ou menos, porque só querem chamar a atenção e algumas pessoas, essas são difíceis de lidar, algumas só querem manipular quem está a sua volta. Mas existem muitos motivos para que alguém desista da vida ou queira que os outros acreditem que ela desistiu.
- Mas quem tomaria um monte de comprimidos para chamar a atenção? Isso pode dar muito errado! – Eu achei aquilo um absurdo.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe