Rubi
O aeroporto de Sydney parecia um outro mundo.
O ar era diferente, mais leve, quase doce. A cada passo que eu dava, empurrando a mala pelas portas automáticas, a sensação de estar recomeçando se tornava mais real.
Laura me esperava logo na saída, sorrindo de orelha a orelha, com os braços abertos.
Quando me viu, gritou meu nome e correu até mim.
O abraço foi apertado, cheio de saudade e de tudo o que eu não sabia que precisava naquele momento.
"Você deve estar exausta", ela disse, rindo. "Quer comer alguma coisa?"
Balancei a cabeça, tentando disfarçar o nó que se formava na garganta.
"Não... acho que meu estômago ainda tá no avião."
Peguei o celular e o liguei para ver as horas, e a tela acendeu com uma enxurrada de notificações.
Trinta chamadas não atendidas.
Todas de Eron.
Por um instante, meu peito apertou.
Ficar desaparecida por quase vinte horas devia tê-lo deixado louco.
Mas não importava mais.
Pela primeira vez, o problema não era meu.
Guardei o celular no bolso e olhei pra frente.
Laura já chamava um táxi, animada como sempre.
"Eu vou te mostrar cada canto dessa cidade. Vamos a baladas, e a bares que deixam os dos Estados Unidos no chinelo. Não vejo a hora de te mostrar tudo."
O caminho até o apartamento dela foi tranquilo. A cidade se estendia pelas janelas, com luzes que dançavam sobre a água e arranha-céus que pareciam tocar o céu. Tudo era novo. Assustador. Lindo.
"Posso pensar em tudo isso, mas te garanto que agora, eu só quero deitar em algo macio e fofo e apagar."
"Ah, é claro que sim. Mas não ache que eu não te conheço. Sei que está tentando se fazer de forte, mas... lá, no fundo, seu coração está em pedaços." ignoro seu comentário. "E por isso já fiz um roteiro para nós."
"Roteiro é?"
"Claro. Nada de depressão pós-término no meu apartamento. Você vai se divertir como nunca antes." gargalho de sua motivação.
O prédio dela era simples, mas acolhedor. Assim que entramos, fui recebida por um aroma de lavanda e uma bagunça leve de quem vive sozinha e feliz.
"Não repare a bagunça", ela disse, empurrando um monte de livros de arquitetura do sofá.
Sorri, aliviada. "Isso aqui sim é um lar de verdade." ela me olha tentando decifrar minhas palavras, mas desiste.
Laura me mostrou o quarto de visitas, ele é meio pequeno, mas iluminado, com uma janela enorme que dava vista pro mar distante.
"É seu enquanto quiser", disse ela, orgulhosa.
"Laura... isso é perfeito", sussurrei, tocando a cortina branca que dançava com o vento.
Mas, por mais que eu tentasse, a dorzinha persistente ainda estava ali. Um lembrete silencioso de tudo o que precisei perder pra estar ali.
Laura percebeu.
"Sabe o que vai te distrair? Trabalho."
Ergui uma sobrancelha.
"Trabalho?"
Ela assentiu, sorrindo. "A gerente do RH me mandou mensagem. Quer te ver amanhã às nove. Uma entrevista rápida, nada formal. Acho que ela ficou impressionada com seu portfólio."
Meu coração acelerou.
"Amanhã? Já?"
"Uhum. E vai arrasar, Rubi. Eu sinto isso."
Sentei na beira da cama, sem acreditar.
Em menos de um dia, eu tinha deixado tudo pra trás e ganhado uma nova chance.
Laura esticou os braços e bocejou.
"Agora, dorme. Amanhã vai ser incrível."
Ela apagou a luz e deixou a porta entreaberta.
Fiquei ali, deitada, observando o luar que entrava pela janela e iluminava o quarto.
Sydney respirava do lado de fora.
E eu respirava junto.
Talvez, só talvez, minha vida estivesse prestes a começar de verdade.
***
"Bora Rubi, acorda. Temos um emprego para conquistar." Ela me acorda, e me sinto perdida. O fuso horário bagunçou minha mente e nem sei quanto tempo eu apaguei.
"Que horas são?" questiono me espreguiçando.
"7:30 querida. Temos que estar as 9 na empresa, então levantaaaaa." dou risada e tento contar nos dedos, eu dormi quase 19 horas direto.
Pulo da cama e já entro na loucura que é conviver novamente com a Laura.
"E você tem certeza de que está preparada para um cargo desse porte? Você não tem histórico recente, não tem experiência com o mercado australiano, não tem..."
"Eu tenho o que importa," eu corto, antes que comece a chorar.
Ela ergue o rosto, surpresa.
"Eu sei projetar. Sei criar. Sei trabalhar duro. Eu só... preciso de uma chance."
"E por que eu deveria te dar essa chance?"
"Por que eu tenho certeza que sou a melhor opção do mercado, e se achar que não é o bastante minhas palavras, aceito começar como estagiária, para testar meu potencial." falo de uma vez.
A mulher aperta os lábios, como se avaliasse minha utilidade.
"Bom. O CEO pediu para entrevistar pessoalmente alguns candidatos. Acho que ele é o único que pode aprovar a sua proposta. Vou chamá-lo."
Meu coração falha uma batida.
CEO?
Eu engulo seco. Não estou pronta para outra pessoa poderosa me desmontando com perguntas.
A porta se abre.
E meu mundo desaba.
Riuk entra.
Riuk.
Meu primo. Meu cunhado.
O segundo filho do Alfa Supremo.
O homem que sempre me protegeu quando éramos jovens.
Aquele que sumiu na semana da minha união.
Ele fecha a porta atrás de si.
A moça do RH sorri, altiva:
"Senhor Peyton, esta é a candidata que te falei..."
Ele me olha, a cor escurecendo de uma forma assustadora.
"Rubi?"
Meu nome sai num trovão, profundo, grave, quase raivoso.
Eu tremo.

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