"Camila"
— Seja lá quem for, não merece você — Nina disparou, apoiando os cotovelos no balcão e me encarando como se pudesse ler meus pensamentos.
Eu pisquei algumas vezes, voltando à realidade. Mais uma vez tinha me distraído, perdida na noite em que César foi embora, perdida na lembrança do beijo dele.
— Não estou pensando em ninguém — respondi, forçando um sorriso. Um sorriso tão falso que até eu teria rido se não estivesse ocupada demais fingindo.
Nina arqueou uma sobrancelha. Ela era minha amiga há muito tempo, uma das únicas que não acreditou no absurdo da acusação de roubo. Ficou ao meu lado e brigou com o irmão para conseguir esse emprego para mim. Os dois eram donos de um pequeno restaurante onde eu trabalhava como garçonete. O salário não era muito, mas era o suficiente no momento.
— Ah, claro. Então você suspira sozinha porque o ar aqui é muito romântico? Enquanto fica ai perdendo tempo, toda semana, o mesmo cara gato, alto, cabeludo, misterioso, venha jantar sozinho e passe o tempo todo te olhando como se estivesse decidindo se te beija ou te sequestra?
Revirei os olhos, mas senti o rosto esquentar.
— Ele não faz isso.
— Faz, sim. Rael. Nome forte, combina com o visual de lenhador moderno. Cabelo grande preso num coque improvisado, barba por fazer, braço cheio de tatuagem… E aquele jeito calado que grita “tenho um passado sombrio, mas posso mudar por você”. — Ela fez uma pausa dramática. — E você? Finge que não vê. Mas vê.
Rael.
Eu sabia exatamente quem era. Ele vinha ao restaurante toda semana, sempre no mesmo horário, sempre sozinho. Sentava na mesma mesa perto da janela. Nunca ultrapassava o limite, nunca dizia nada além do necessário. Mas olhava. E eu sentia.
E, ainda assim, não era por ele que meus pensamentos se perdiam.
Não queria ser a mulher que suspira pelos cantos. Não queria ser a que espera, que revive conversas antigas tentando encontrar respostas que nunca vieram.
Mas, apesar de todo o caos, da minha família, das ameaças, da confusão que minha vida tinha se tornado, era César que invadia minha mente nos momentos de silêncio. César e a distância que ele impôs. César e o maldito sumiço.
Cada vez mais as lembranças da declaração dele no dia do casamento de Isabella me atormentava, dizendo que me amava, ele acha que estava me protegendo, cuidando de mim. Depois… simplesmente desapareceu por um motivo mal esplicado, com uma promessa rasa de um dia voltar.
Eu era muito ridícula, e Nina tinha razão. Não era mulher disso, de ficar me lamentando por homem, ainda mais por um que nunca esteve disponível. Ele tinha imposto a distância, e eu tinha aceitado. Inclusive, eu concordava em nunca ficar muito próxima daquela família. O melhor exemplo era o que tinha acontecido com a minha prima.
O problema, talvez, toda vez que eu analisava a nossa — por assim dizer — amizade, era esse desejo nunca satisfeito. Nunca completado. Um beijo e mais nada. Quem sabe, se eu tivesse dado vazão a tudo o que sentia, não estivesse agora assim, sentindo saudade do que não tive.
Sim, eu era ridícula.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido