"Isabella"
O tempo passou. Minutos, horas, até poderiam ser dias.
Já não sabia calcular. A cabeça girava, a sede me atormentava, a boca seca ardia, ás lagrimas já tinham secado, sobrando apenas o estado de torpor. Carlos não queria apenas me matar. Queria me torturar antes.
Pensei em Augusto.
No início estranho do nosso relacionamento, nada ortodoxo. Nos momentos roubados, no amor que nasceu onde não devia. No casamento que começou como mentira e virou verdade. Toda uma vida não vivida. Eu tinha desperdiçado tempo demais acreditando que haveria depois.
Agora não haveria nada.
O som da porta se abrindo me fez estremecer.
— Gostou da revelação? — Carlos perguntou, com um sorriso satisfeito. — Achei injusto você abandonar essa vida sem saber. Foi um plano brilhante. Ninguém desconfiou. Talvez a Karen… mas nada que ultrapassasse os limites da cabeça dela, principalmente quando tem dinheiro envolvido. Quer ouvir mais revelações?
Ele riu e segurou minha cabeça, obrigando-me a encará-lo. Havia diversão estampada no rosto dele, aquele era o verdadeiro homem por trás da máscara.
— Por favor… — sussurrei, sem saber pelo que implorava.
— Sede? Imagino. Meu irmão te drogou. Daqui a pouco a gente dá outra dose, vai ficar bem molinha.
— Por favor… — tentei implorar de novo, mas a voz quase não saiu.
— Sabe quando começou meu caso com a Karen? — continuou, ignorando-me. — Antes do casamento. Peguei ela roubando. Coisa corriqueira, aliás. Implorou para eu não contar ao seu pai. Ele já sabia, claro. Sempre soube que a filha não valia nada. Mas eu aproveitei a situação. Fiz uma troca.
Meu estômago revirou.
— Não falaria nada se ela fosse minha — ele sorriu. — Vou te contar: sua irmã não pensou duas vezes. Tirou a roupa rapidinho. Inclusive, viajei com ela logo depois do nosso casamento. Não dava para ter lua de mel com você… mas com a Karen foi uma loucura. Três dias trancados no quarto. Eu sei que ela te disse que foi depois, mas acho que a essa altura você já sabe que sua irmã mente que nem sente, ela até acredita nas próprias mentiras.
— Por quê? — perguntei, com a voz quebrada. — Por que eu?
— Porque você trabalhava, lembra? Dia após dia. A Karen e eu tínhamos muito em comum. Posso até dizer que a amava… afinal, ela me deu um filho. Mas não dava para casar com ela antes, não tinha muita serventia. Depois que engravidou, percebi que tinha demorado tempo demais com você. Uma família certinha melhora muito a imagem nos negócios. Dei tudo o que ela quis. No fim, ela merecia.
Carlos falava com prazer.
Não sabia o que era verdade ou mentira. Talvez nem importasse. Ele queria me mostrar que minha vida inteira tinha sido uma farsa cuidadosamente construída.
E conseguiu.
— Ainda com isso? — a voz do irmão gritou do corredor.
Márcio entrou no cômodo. Usava um avental sujo, ameaçador. O olhar dizia tudo.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido