"César"
Pela tela dos monitores, eu observava a Lush em pleno vapor, mas ainda faltava muita coisa para melhorar, não queria que as pessoas tivessem apenas uma boa experiência, mas que fosse um lugar inesquecivel.
Agora eu ocupava a sala que antes era de Isaac. Tinha mandado fazer uma boa limpeza no local antes de me instalar definitivamente.
Estava aprendendo a me inteirar do processo de administrar uma casa noturna. Era um ramo completamente diferente do que eu estava acostumado, e ainda havia o agravante de que Isaac usava o lugar para todo tipo de coisa errada. Eu precisava desvincular o nome da Lush de qualquer irregularidade. Meu objetivo era construir um lugar limpo, onde as pessoas fossem apenas para se divertir.
— O senhor me chamou?
Um rapaz bateu na porta e entrou. Fabrício atravessou a sala. Era um funcionário antigo, que eu havia investigado e estava limpo. Era uma boa pessoa e competente para assumir como gerente do lugar, promoção que eu mesmo concedera. Era o mais antigo ali e sabia como as coisas funcionavam.
— Sim, pode se sentar. Quero chamar uma antiga funcionária de volta. Camila. Ela era uma ótima bartender e gostaria que assumisse a responsabilidade pelo bar. Quero que você cuide disso pessoalmente.
— A Camila? Não sei se o senhor sabe, mas ela foi acusada de roubo —Fabricio comentou me deixando furioso.
— Eu conheço a Camila e sei que foi uma acusação falsa. Tudo culpa do Isaac — Falei com firmeza.
— Não tenho dúvidas disso e nunca desconfiei da Camila. Não foi isso que eu quis dizer. Só queria saber se o senhor está ciente, porque, pelo pouco que conheci dela, é orgulhosa. Duvido que voltaria para cá depois de tudo.
— Não precisa me chamar de senhor, é estranho. E sim, eu posso imaginar que ela vá relutar. Mas quero que tente mesmo assim. Converse com el, não é justo manter as coisas assim, ainda mais sabendo que ela não consegue emprego em outras casas noturnas por causa de uma acusação falsa.
— Sem problemas. Eu vou falar com ela, pelo tentar.
— E outra coisa… Não precisa dizer que fui eu quem pediu. Por favor — Não tinha como esconder por muito tempo de Camila que agora eu era o dono da Lush, tinha plena consciência disso.
Fabrício me olhou por um momento, parecia em dúvida.
— O senhor… quer dizer, você… Sabe, as pessoas falam. Não quero ser indiscreto ou fofoqueiro, mas todo mundo comenta que você vinha aqui só para falar com ela. Eu posso até não dizer nada, e se até agora ninguém falou, no momento em que ela pisar aqui vai saber que você comprou a Lush. Todo mundo comenta.
— Eu imagino. Mas, pelo menos no primeiro momento, só peço que não fale nada.
— Claro. Sem problemas. Vou ver se consigo falar com ela.
— Obrigado.
Fabrício saiu da sala. Era loucura. E ele estava certo. Camila não voltaria — tanto por orgulho quanto por saber o que eu tinha feito. Pensar nela era como uma punhalada. O momento em que virou as costas para mim, o jeito como me olhou, decepcionada, enxergando mais do que eu queria mostrar… Foi ali que percebi o quanto tinha errado.
Mas havia Júlia. E dizer que ela era apenas um problema seria injusto. A cada dia eu percebia o quanto ela se integrava à minha casa, à minha vida. Ainda assim, as coisas não podiam continuar daquele jeito.
No dia seguinte, logo cedo, anunciei que a mãe dela nos receberia no sábado.
Júlia parou no meio da sala. O olhar dela mudou, não era só surpresa, mas algo entre medo e irritação.
— Você falou com a minha mãe de novo? — A voz saiu baixa, mas carregada. — Quando?
— Ontem. Você sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde, tem algum problema?
Ela respirou fundo, como se tentasse se controlar.
— Eu sei… eu sei disso. É que acho que não estou preparada. Nosso último encontro foi um desastre. Ela disse coisas horríveis. Eu disse coisas piores ainda. Ela afirmou que jamais me perdoaria. Enfim… Mesmo depois de tantos anos, ainda é estranho. Não sei… Mas, ao mesmo tempo, quero que ela conheça o neto. É a nossa única família…
Eu me aproximei.
— Eu só estou tentando resolver.
— Eu sei que sou um problema, que não consigo fazer nada agora...
Aquilo me atingiu mais do que deveria.
— Não é isso.
— É sim. — A voz dela tremeu. — Você entrou na minha vida, me ajudou de todas as formas possíveis, eu não sei o que faria sem você, mas sinto que me torno a cada dia mais um problema na sua vida.
Fiquei em silêncio. Parte de mim queria argumentar. Outra parte sabia que ela não estava completamente errada. Júlia abaixou a cabeça e olhou para o lado, tentando disfarçar as lágrimas. Aproximei-me e a abracei.
— Eu quero que ela conheça o neto… é a nossa única família. Mas eu tenho medo, medo de ser rejeitada de novo.
— Eu estou aqui — murmurei.
E era verdade. Eu estava, sempre estava. Mas por quê?
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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido