Meses depois
Milena estava sentada em uma cafeteria simples em seu horário de almoço perto da empresa onde trabalhava como faxineira. Vestia um uniforme azul claro, seus cabelos presos com pressa. As mãos ainda tinham o cheiro insistente de produto de limpeza, mesmo depois de esfregadas três vezes na pia do banheiro da empresa. Ela odiava aquele cheiro.
Lívia mexia no celular distraída. Caendra, elegante como sempre, observava as duas com um sorriso divertido.
— Eu ainda não acredito que você me recusou, Mila. — disse Caendra, levando a xícara aos lábios. — Ninguém nunca recusou uma proposta minha.
Milena soltou um riso leve.
— Eu não nasci pra dançar em palco, principalmente ser vista por outros homens.
— Você nasceu pra chamar atenção sem tentar. É diferente. — Caendra respondeu.
Lívia apoiou o queixo na mão.
— Eu até pensei que você fosse aceitar. Quando vi o valor que ela paga, quase fui eu.
Milena arregalou os olhos.
— Não diga bobagens.
— Não é bobagens. Eu só estava avaliando oportunidades.
Caendra riu.
— E você prefere limpar banheiro.
— Prefiro dormir tranquila. — Milena respondeu. — Eu já perdi muita coisa. Não vou perder o respeito por mim também.
Caendra inclinou levemente a cabeça.
— Minhas meninas dormem tranquilas também. Não esqueça, elas não são prostitutas, são dançarinas.
Houve um pequeno silêncio.
— Não liga pra ela.— disse Lívia.— Mila é apaixonada pelo pai das crianças. Ela não vai fazer nada que possa de alguma forma fazer ela sentir que está traindo ele. Mesmo fingindo esses meses todos que não quer saber sobre ele.
— Lívia!— advertiu Milena.
— Uma hora você vai ter que falar nele.— Lívia deu de ombros.— Marcelo veio a público no dia seguinte dizendo que não tem nada com aquela patricinha.
— Se não tem nada... o que impede dele vir atrás da gente?— Milena murmurou.
— Como ele vai vir atrás sendo que nem seu nome você usa por aqui? Marcelo não tem bola de cristal.
— As vezes tenho dúvidas se você é minha amiga ou dele.— resmungou fazendo Lívia sorrir.— Enfim... esses meses estão tranquilos, não tem ameaças, meus filhos estão em segurança, não tem câmeras registrando cada movimento meu. Eu estou conhecendo um mundo diferente e mesmo com as dificuldades, estou gostando de como estamos vivendo.
Caendra olhou para Milena com tristeza, a fala até podia parecer de superação, que nada importava, mas a verdade era outra e elas sabiam bem.
— Deixa o tempo resolver.— Caendra respondeu apoiando a mão em cima da de Milena.— Talvez vocês precisassem desse tempo longe para amadurecer.
Milena sorriu em gratidão. Caendra não era o que a ela imaginou naquele dia que propôs trabalhar na boate. Não era vulgar, muito menos forçada. Era inteligente. Observadora. Direta. Sabia ler as pessoas. E sem muito esforço com o decorrer dos dias elas se tornaram amigas. Milena sentia confiança de falar abertamente algumas coisas.
— Desculpa por sempre te envolver nos meus problemas.— disse Milena envergonhada.
— Relaxa. Eu sei que está difícil para você. E saiba que eu só ofereci o trabalho pois sei que iria te ajudar. — Caendra disse. — Não vejo só beleza e postura. Você tem presença. Isso não se ensina, já se nasce.
Milena mexeu no café.
— Aprendi que presença não paga aluguel.
— Paga sim. — Caendra rebateu com calma. — Só depende de onde você usa.
Lívia olhou para Caendra com curiosidade.
— E como é lá dentro? Sempre tive curiosidade.
Caendra sorriu de canto.
— Querem ver?
Milena levantou os olhos.

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