Bruno empurrou a porta do pequeno quarto no fundo do esconderijo e parou imediatamente. Por um segundo ele pensou ter entrado no lugar errado. O ambiente estava completamente diferente de horas atrás. As paredes haviam sido pintadas de azul claro. Um papel de parede com pequenos aviões cobria uma das laterais. Sobre a cama havia lençóis novos, dobrados com perfeição. Dois travesseiros pequenos estavam alinhados no centro.
— Mas que raio está acontecendo aqui?— murmurou Bruno franzindo a testa.
No canto do quarto havia uma caixa aberta cheia de brinquedos, carrinhos, blocos de montar, um ursinho de pelúcia. E no meio de tudo aquilo estava Sabrina. Ela estava ajoelhada no chão, organizando os carrinhos sobre um tapete peluciado. Quando percebeu a presença dele, ergueu os olhos lentamente.
— Demorou.
Bruno continuou parado na porta.
— O que… é isso?
Sabrina pegou um dos carrinhos e o colocou ao lado do outro com uma delicadeza quase ensaiada.
— O quarto dos meus filhos.
Ela falou com naturalidade, como se estivesse explicando algo completamente óbvio.
Bruno sentiu um arrepio percorrer sua nuca.
— Você está… falando sério? Pretende manter esses meninos na mesma cidade em que Marcelo mora?
Sabrina levantou-se devagar. Ajeitou o vestido e passou a mão sobre a colcha da cama, alisando uma dobra invisível.
— Eu quero tudo perfeito quando eles chegarem.— respondeu ignorando a outra pergunta.
Bruno olhou ao redor outra vez, tudo aquilo beirava a insanidade. Ele passou a mão pelo rosto um pouco hesitante.
— Sabrina…
Ela ergueu o olhar.
— O que foi?
Bruno pensou por um instante, foi apenas uma fração de segundo. Mas naquele momento algo dentro dele vacilou.
— Talvez… a gente esteja indo longe demais.
Sabrina ficou imóvel e então um sorriso lento, frio surgiu em seus lábios.
— Ah Bruno…— Ela murmurou caminhando até ele devagar. Os passos ecoavam no chão de madeira.— Agora você quer bancar o bom moço?
— Não é isso...— Bruno respondeu desviando o olhar.
Ela sorriu e parou bem perto dele.
— É tarde demais para isso, Bruno.— A voz dela saiu baixa. Ela inclinou a cabeça levemente. — Você já mentiu, manipulou. Já perseguiu aquela minha filha por meses. Já traiu seu amigo. O mesmo que te tirou do fundo do poço quando seu pai deu você e sua fragil irmã como pagamento de dívida. Agora vai terminar o que começou.
Bruno engoliu em seco, mas continuou em silêncio.
Sabrina sorriu.
— Ou eu posso simplesmente contar para seu pai onde você e sua irmã estão.
O silêncio caiu pesado entre os dois. Bruno ficou rígido. Ela deu um pequeno tapinha no peito dele.
— Sabia que não iria me decepcionar, querido.— disse com a voz arrastada. Sabrina se afastou, pegou uma bolsa sobre a cadeira. — Vou sair.
— Para onde vai? Não é bom ficar desfilando por aí. Marcelo está desconfiado. Passei pelo colégio e ele estava lá.

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