Marcelo encarou o amigo de forma fria.
— É ela!— respondeu fechando a mão em punho.
A música mudou novamente, mais lenta, mais envolvente, com uma batida grave que vibrava no chão e subia pelas pernas. Milena girou no centro do palco e foi nesse movimento que o viu, ele estava ali.
Sentado em uma das mesas laterais, postura rígida, olhar fixo, intenso demais para ser confundido com curiosidade casual. Marcelo não piscava. Não desviava. Não respirava com naturalidade.
O mundo dela silenciou. Por um segundo, o medo veio primeiro. Um medo real, cru, de ter sido descoberta, de não conseguir sustentar a mentira que iria contar. De ver nos olhos dele desprezo ou indiferença. Mas quase no mesmo instante, outra sensação se sobrepôs.
Adrenalina.
O tipo de energia que percorre o corpo inteiro e transforma vulnerabilidade em poder.
Ela poderia ter fingido não ver, ter inventado uma desculpa e saído do palco, mas não interrompeu a dança. Ao contrário. Caminhou com passos calculados, mantendo o ritmo, deixando que os saltos marcassem o chão no compasso da música. Cada movimento agora era consciente. Cada giro tinha direção.
Na direção dele.
Marcelo não se mexeu quando ela se aproximou. Apenas acompanhou com o olhar, como se estivesse analisando uma prova irrefutável de algo que já desconfiava. Quando os olhares finalmente se encontraram, não houve dúvida.
Ele a reconheceu pelo olhar inconfundível.
Milena sustentou aquele contato por um segundo mais longo do que deveria. Desafiador. Intenso. Vulnerável e provocador ao mesmo tempo.
Marcelo apoiou os cotovelos na mesa e, sem tirar os olhos dela, falou com voz baixa e controlada:
— Deixem a mesa.
Alan hesitou, mas obedeceu. Thomas levantou-se logo depois. Antes de sair completamente, Alan tocou o ombro de uma das funcionárias do salão, que chamou Caendra, e explicou rapidamente a situação em tom discreto.
— Aquele homem procura aquela mulher igual um louco. Preciso que me ajude a dar privacidade para os dois.
Caendra olhou para Milena por um instante. Entendeu sem que precisasse de detalhes. Com um gesto sutil, orientou os seguranças e fechou aquela ala do salão, mantendo distância respeitosa dos demais clientes.
Em poucos minutos, restaram apenas eles. A música continuava, mas parecia mais baixa agora, como trilha particular de um confronto inevitável.
Marcelo recostou-se na cadeira, os olhos escurecidos por algo que misturava desejo, incredulidade e uma ponta perigosa de orgulho ferido.
— Então é aqui que você se esconde? — perguntou, sem elevar a voz.
Milena não conseguiu responder. Em vez disso, começou a dançar, como se cada movimento fosse uma frase não dita.
Ela circulou a mesa lentamente, mantendo distância suficiente para não tocá-lo. O vestido curto do figurino acompanhava o ritmo do corpo. Ela se inclinava, girava, recuava, aproximava-se novamente, sempre sem ultrapassar a linha invisível que separava provocação de rendição.
Marcelo acompanhava cada gesto. O maxilar travado. Os dedos apertando a borda da mesa. Ela parou diante dele, a poucos centímetros, mas sem encostar. Desceu o olhar pelo peito dele, depois voltou aos olhos. Deslizou a mão pelo próprio braço, pelo pescoço, pelo contorno da cintura, como se desenhasse no próprio corpo aquilo que ele um dia conheceu de memória.
Marcelo não aguentou mais a imobilidade.
Ele se levantou devagar, como se cada músculo precisasse ser convencido a obedecer. A cadeira rangeu contra o chão. Dois passos largos e ele estava dentro do círculo invisível que ela traçou. Agora não havia mais mesa entre eles. Apenas ar carregado, respiração entrecortada e três anos de silêncio gritando.
Ele ergueu a mão direita, hesitante pela primeira vez naquela noite. Os dedos pararam a milímetros da cintura dela, como se tocar fosse ao mesmo tempo a coisa mais necessária e a mais perigosa do mundo.
— Três anos, Milena. — murmurou ele, a voz tão baixa que quase se perdeu na batida grave da música. — Três anos imaginando se você ainda estava me esperando.
Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, pegou delicadamente a mão dele e a guiou até sua cintura. O contato foi elétrico. A palma quente dele contra o tecido fino. Os dedos dele se fecharam instintivamente, apertando o suficiente para marcar presença, mas não para machucar.
Milena subiu a outra mão até o rosto dele. Traçou a linha do maxilar com a ponta dos dedos, sentindo a barba rala que não existia da última vez que o viu. Ele fechou os olhos por um segundo, como se doesse suportar tanta proximidade depois de tanto vazio.
— Eu nunca deixei de ser sua.— ela sussurrou, os lábios quase colados nos dele.
Ele abriu os olhos. Havia raiva ali, sim. Saudade. Alívio. E algo mais selvagem, mais faminto.
— Você não tem noção de como estou louco para te beijar.
Milena pressionou o corpo contra o dele, devagar, deixando que ele sentisse cada curva, cada tremor que ela tentava esconder.
— E o que está impedindo de você fazer isso?

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