Marcelo apertou o volante com mais força por um segundo antes de voltar a dirigir.
O restante do caminho foi feito quase em silêncio. As ruas estavam vazias, iluminadas apenas pelos postes espaçados e pelas luzes ocasionais de alguma janela acesa. O carro deslizou pela avenida até entrar em um bairro mais tranquilo.
Depois de alguns minutos, Milena apontou discretamente.
— É ali.
Marcelo diminuiu a velocidade e encostou o carro em frente à casa. Ele desligou o motor, por alguns segundos nenhum dos dois se mexeu.
— Vamos?— ela perguntou quebrando o silêncio.
Milena soltou o cinto primeiro e abriu a porta. O ar da madrugada entrou frio quando ela saiu do carro. Marcelo contornou o veículo e parou ao lado dela.
Antes que Milena pudesse caminhar até a porta, ele olhou rapidamente para os lados da rua, atento ao redor. Então se aproximou e a abraçou por trás, envolvendo a cintura dela com os braços.
Milena relaxou contra ele por um instante.
— Foi difícil? — perguntou Marcelo, a voz baixa perto do ouvido dela. — Esse tempo todo… sozinha.
Ela demorou alguns segundos para responder, os olhos ficaram fixos na porta da casa.
— Teve momentos difíceis. — disse por fim. — Muito difíceis.
Marcelo abaixou um pouco a cabeça.
— Eu sinto muito por isso, amor.
Milena virou levemente o rosto.
— Mas também tiveram momentos leves. — completou ela. — Momentos que fizeram valer a pena continuar.
Marcelo soltou um suspiro baixo.
— Você nunca deveria ter precisado viver escondida… muito menos colocar nossos filhos em perigo por minha causa.
Milena virou dentro do abraço dele até ficar de frente para ele. Os olhos azuis estavam calmos.
— O perigo não nasceu com você, Marcelo.
Ele franziu a testa. Ela segurou as mãos dele.
— O perigo deu à luz a mim. Não foi o contrário.
Marcelo ficou em silêncio por um momento, absorvendo aquelas palavras. Então Milena puxou as mãos dele.
— Vem. Que eu sei que sua ansiedade está gritando.
Ela caminhou até a porta e abriu devagar, tomando cuidado para não fazer barulho. A casa estava completamente silenciosa. Apenas o som distante de um relógio marcando os segundos no corredor.
Marcelo entrou atrás dela, olhando ao redor com atenção. O lugar era simples, mas organizado. Alguns brinquedos estavam encostados no canto da sala, um desenho infantil preso na geladeira da pequena cozinha.
Ele parou por um instante diante daquele detalhe.
Milena segurou a mão dele outra vez e o puxou suavemente pelo corredor.
— Eles estão dormindo.
Ela caminhou até a última porta e parou.
Marcelo percebeu que o coração dele estava batendo forte demais. Era estranho ele já tinha enfrentado situações muito piores na vida, mas naquele momento sentia algo completamente diferente.
Milena abriu a porta devagar. A luz fraca do abajur iluminava o quarto. Quatro pequenas camas estavam alinhadas lado a lado. As crianças dormiam profundamente.

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