Sophia continuava sentada, mas já não parecia pertencer àquele lugar. O olhar não estava perdido.
Ela pressionou os lábios um contra o outro, respirou fundo e murmurou, mais para si do que para ele:
— Olha como a vida é engraçada. Passei anos tentando entender o que tinha feito de errado pra ele mudar tanto tão de repente. — A voz não subiu, mas ganhou força. — E no fim… não tinha nada a ver comigo.
Richard estendeu a mão.
— Posso ver?
Sophia hesitou por um segundo, mas entregou.
Ele pegou o documento, passando os olhos pelas linhas com atenção. Demorou um pouco mais do que o esperado. Quando levantou o olhar, não conseguiu esconder a surpresa.
— Se ele não é o seu pai. Então quem é?
A pergunta saiu sem preparo. O papel ainda estava entre os dedos dele, levemente trêmulo, os olhos presos naquelas palavras.
Sophia deu um pequeno sorriso, sem humor.
— Acho que essa é a parte que ninguém nunca fez questão de me contar.
Ela apoiou as mãos no chão e se levantou devagar, tirando a poeira da roupa com gestos automáticos. Os olhos passaram pela casa uma última vez, sem apego.
— Agora faz sentido… — disse, mais baixa.
Richard franziu a testa.
— O quê?
Sophia respirou fundo antes de responder, mas não olhou para ele.
– Eu nunca entendi quando tudo começou a dar errado. Quando ele começou a me olhar diferente… como se eu fosse um peso dentro da própria casa. Eu achava que era só… a vida. Que as coisas tinham ficado difíceis. Me perguntava o porquê dele nunca ter pensado duas vezes antes de me machucar.
A confissão saiu pesada.
— Eu passei anos achando que tinha feito algo imperdoável… — continuou, a voz firme, mesmo com o peso por trás — mas pra ele, eu nunca fui nada que importasse de verdade.— Ela deu um passo em direção à porta.— Me dei conta disso quando eu mais precisei… — a pausa veio curta, controlada — eu não tive um pai, recebi somente desprezo.
Richard observou cada movimento, tentando encontrar algum sinal de ruptura mais visível. Esperava lágrimas, revolta, qualquer coisa que aliviasse a tensão que se formava ali. Mas Sophia só parecia contida demais.
— Sophia…
Ela o interrompeu com um leve gesto.
— Não precisa. — disse, sem dureza. — Eu não estou surpresa o suficiente pra reagir agora. Por isso não precisa ter pena. A Sophia de dezessete anos precisava. Eu não.
Sophia não esperou por nenhuma reação. Apenas seguiu até a saída, se prolongasse aquilo seria pior.
— O senhor vai ficar? Não tem mais nada aqui pra mim.
Richard demorou um segundo antes de segui-la. Ainda segurava o papel, como se não tivesse decidido o que fazer com aquilo.
Do lado de fora, o ar parecia mais leve, mas não o suficiente para desfazer a dor que se instalava nela.
Ele abriu a porta do carro para ela.
— Eu te levo para casa.
Sophia assentiu, entrando sem discutir. Durante o trajeto, não disse nada. Manteve o olhar voltado para a janela sem realmente enxergar.
Richard também não insistiu. Não tinha certeza de qual seria o próximo passo. Quando o carro parou em frente ao prédio, ele saiu primeiro e abriu a porta para ela.

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