O quarto estava em silêncio quando Milena terminou de se arrumar. Ajustou o vestido uma última vez e respirou fundo.
Marcelo estava sentado na poltrona perto da janela, o paletó pendurado no encosto, observando em silêncio. Não dizia nada. Apenas acompanhava cada movimento dela com atenção demais para ser casual.
Ela percebeu o olhar antes mesmo de se virar.
— Está pronta? — ele perguntou, a voz calma.
Milena assentiu com a cabeça e caminhou alguns passos na direção dele. Não parecia nervosa, mas estava. O jantar, o avô, ser exposta diante de tantas pessoas, aquele mundo que não era o dela. Tudo se misturava em um aperto discreto no peito.
Marcelo se levantou devagar. Parou à frente dela e a analisou por um segundo mais longo do que o necessário. O vestido caía perfeitamente, simples e elegante. Não havia exagero. Milena permaneceu com o seu olhar nos dele, mesmo sentindo o rosto esquentar.
— Você está muito linda. — disse, sem rodeios.
Ela sorriu de leve, um sorriso curto, quase contido. O rubor subiu fácil demais, denunciando o que ela tentava esconder.
— Obrigada... você também está perfeito.
Por um instante, nenhum dos dois disse mais nada. Marcelo parecia prestes a tocar nela, mas conteve o gesto. Apenas estendeu o braço.
— Vamos?
Milena segurou o braço dele e juntos saíram do quarto.
Enquanto caminhavam Milena o olhava preocupada. Algo naquela expressão do rosto dele apertava seu peito. Ele sentiu, parou e virou o rosto.
— Quer dizer alguma coisa?— Marcelo perguntou.
— Você está certo que quer fazer isso?
— Sim. É por isso que você está aqui.
Ela desviou o olhar, frustrada. Já havia acostumado com as oscilações de humor dele, mas mesmo assim não deixava de doer.
Mesmo estando pouco tempo ao lado dele, ela entendeu que ele só a tratava dessa forma, quando ele estava tentando se proteger.
E aquela reação só deixava claro para Milena, que ele não tinha certeza se apresenta-la com sua noiva seria certo.
Milena virou o rosto novamente e levantou os olhos para os dele. Por um momento, ficou em silêncio, apenas observando-o.
O rosto sério, a mandíbula tensa tentavam esconder a dor sob o verniz do autocontrole.
Ela se aproximou um passo.
— Às vezes, parece que estar comigo te destrói. — murmurou, a voz baixa, com medo da resposta.
Marcelo respirou fundo. As palavras dela o atingiram de forma precisa, como sempre.
— Não é você que me destrói, Milena. — respondeu, olhando-a nos olhos. — É o que sua presença representa.

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