Milena se aproximou devagar.
— Você está bem? — perguntou, a voz baixa.
— Sim...— respondeu no automático.
— O que estava escrito nesse papel?
Marcelo fechou os olhos por um instante, lutando contra lembranças que insistiam em voltar. Quando os abriu, amassou o bilhete na mão e jogou no lixo. Virou o corpo na direção dela forçando um sorriso.
— Foi engano... não era para mim.
Milena sustentou o olhar dele por alguns segundos. Viu o brilho contido, as lágrimas presas que ele não deixaria cair. Mas não insistiu.
Com delicadeza, ajeitou a gravata dele, como se aquele gesto fosse um acordo silencioso entre os dois.
— Quer voltar para a festa?
Marcelo suspirou, passou o braço pela cintura dela e a puxou para perto.
— Vamos.
Ao retornarem ao salão, algumas conversas cessaram por um breve momento. Olhares curiosos os acompanharam, atentos demais para quem fingia naturalidade.
Marcelo caminhava ao lado de Milena como se nada tivesse acontecido. Ainda assim, seus dedos tocaram de leve as costas nuas dela, um gesto rápido, quase imperceptível, que a fez respirar fundo.
Do outro lado do salão, o avô de Marcelo observava em silêncio. Havia um sorriso contido em seu rosto, e algo mais em seu olhar, uma calma rara, como se estivesse vendo no neto uma versão que há muito tempo não aparecia.
Olavo manteve o olhar fixo em Marcelo quando sentiu alguém se aproximar.
— Você está observando demais, pai. — comentou, Paulo, o tio de Marcelo, parando ao seu lado, com um copo de uísque na mão.
Olavo sorriu de canto.
— Estou reconhecendo alguém que eu achei que não veria mais.
O homem ergueu a sobrancelha, seguindo o olhar do avô até o casal.
— Está falando do Marcelo?
— Estou. — Olavo assentiu devagar. — Há anos ele entra nesses salões como quem veste uma armadura. Hoje… entrou leve.
O tio soltou um suspiro cansado.
— Ele sempre precisou ser forte e o senhor sabe por que.
Paulo respirou fundo, os olhos marejando com a lembrança que também o assombrava.
— Será que ele conseguiu superar o que aconteceu?
O avô virou o rosto na direção de Marcelo, que ria baixo de algo que Milena disse, a mão pousada nas costas dela com naturalidade.
— Talvez não… — disse o velho, com um sorriso melancólico. — Mas pela primeira vez em muito tempo, ele parece querer tentar.
Marcelo e Milena se aproximaram e o assunto morreu ali, ninguém mais ousava falar da mãe dele.
Olavo tomado por uma alegria começou a fazer planos para uma viagem em família. Falou em praias, em descanso, em dias longe de reuniões e prazos. Disse que queria ver todos juntos, inclusive o pai de Milena. A cada palavra, o sorriso de Marcelo crescia um pouco mais.
Mas nem todos sorriam. No canto mais próximo ao bar, Katherine observava, o coração apertado em um nó de fúria. O copo de champanhe em sua mão tremia com violência contida, e o esmalte vermelho faiscava como sangue sob a luz.
Ao redor, duas amigas trocavam olhares cúmplices, cochichando segredos que ela fingia ignorar, mas que ecoavam em sua mente como acusações.
O olhar de Katherine estava fixo em Milena. O rubor no rosto dela. O brilho nos lábios ainda marcado pelo beijo dele. A forma como Marcelo se inclinava levemente ao falar, o toque protetor em suas costas, o beijo carinhoso na testa, o sorriso nunca visto.
Cada gesto era uma afronta. A raiva subiu-lhe à garganta como fogo líquido. O cristal do copo gemeu sob a pressão de seus dedos. Os olhos, antes de pura inveja, agora cintilavam ódio, frio, calculado, destrutivo.
— Essa vagabunda vai pagar muito caro por tirar Marcelo da minha irmã. — sussurrou entre os dentes, a voz tão baixa quanto venenosa.

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