Milena respirou fundo antes de se levantar do sofá. O tornozelo incomodava mais que ela queria admitir, mas ela não se importava.
Marcelo a observava em silêncio, atento. Quando ela deu o primeiro passo, ele se aproximou instintivamente.
— Não quer ir embora?— disse, baixo.
— Estou bem. — garantiu, com um sorriso pequeno.
Ela pegou a bolsa, ajeitou a alça no ombro e caminhou com passos curtos até a porta fechada. Marcelo foi atrás. Parou a poucos centímetros dela.
Milena virou-se de repente e, antes que o pensamento interferisse, ficou na ponta dos pés e encostou os lábios nos dele. Foi um beijo suave, quase tímido. Mas carregado de significado.
Marcelo pousou a mão na cintura dela e correspondeu. O toque na sua cintura fazia Milena suspirar.
— Vai com cuidado. — pediu ele deixando um beijo na testa dela.
— Tá bom. — respondeu ela, abrindo a porta.
Milena saiu da sala com o coração acelerado. Caminhou pelo corredor tentando organizar os pensamentos. Tudo que estava acontecendo parecia grande demais para caber dentro dela.
Quando virou o corredor, o celular vibrou em sua mão.
Ela parou e olhou na tela, estranhou por ser um número desconhecido. Milena hesitou por um segundo, depois atendeu.
— Alô?
Houve um breve silêncio do outro lado. Um silêncio calculado. Então a voz veio.
— Milena, querida, quanto tempo.— a mulher disse baixo, arrastado, calmo demais para a ameaça que aquela ligação significava.— Como você está linda...
Tudo pareceu girar em torno dela. Fazia tempo que não ouvia aquela voz, mas no instante que soou, ela sabia exatamente quem era.
O celular escapou de sua mão e caiu no chão com um estalo seco. O som ecoou pelo corredor vazio.
Milena levou a mão ao peito, sentindo o ar faltar. O coração disparou de um jeito diferente. Mais antigo. Mais profundo.
Ela se abaixou rapidamente, pegou o aparelho com dedos trêmulos. A tela indicava: ligação encerrada.
— Não pode se ela… — murmurou para si mesma.
O corredor parecia mais estreito. As paredes, mais próximas. Milena começou a caminhar, olhando para os lados, como se a qualquer momento alguém fosse surgir atrás de uma porta, ou de um canto qualquer.
Milena apertou o celular contra a palma da mão, tentando controlar a respiração. Mas o corpo não obedecia. O medo se infiltrava devagar, pesado, sufocante.
Já na sala Milena não conseguiu prestar atenção em nada do que foi dito naquela aula.
O professor falava, os alunos anotavam, mas as palavras passavam por ela sem fazer sentido. Tudo se repetia em sua mente como um filme mal editado.
O celular, guardado na bolsa, parecia pesar mais do que o normal.
Marcelo também não estava ali por completo. Tentava manter a postura, o olhar firme, a voz controlada, mas a atenção se partia em duas. Parte dele estava nos papéis em sua frente. A outra, inteiramente em Milena.
— O que ela disse?
Milena o encarou, confusa.
— Ela só disse meu nome. Deu a impressão que ela estivesse me observando. — Milena franziu o cenho. — Marcelo, o que está acontecendo? Você conhece a minha mãe?
A pergunta ficou suspensa no ar. Marcelo fechou os olhos por um breve segundo. O suficiente para se recompor. Então ligou o carro novamente, arrancando em direção à estrada que levava à mansão.
— Depois conversamos. — disse, seco. — Agora não.
Milena se recostou no banco, o coração acelerado. Ela estava acostumada ao silêncio dele. Mesmo assim, sua mente começou a trabalhar sem parar. Pensou em mil possibilidades. Em explicações improváveis. Em coincidências.
Mas nenhuma chegava nem perto da gravidade que aquele silêncio carregava.
Quando chegaram à mansão, Marcelo estacionou e saiu do carro sem dizer nada. Abriu a porta para ela, esperou que entrasse, e seguiu logo atrás.
Dentro da casa, Milena subiu direto para o quarto. O corpo parecia pesado demais. A cabeça latejava. Ela se jogou na cama ainda vestida, fechando os olhos na tentativa de dormir, de desligar os pensamentos. Mas o aperto no peito não cedia.
Algum tempo depois, Marcelo entrou no quarto em silêncio.
Milena dormia de lado, o rosto relaxado apenas na aparência. Ele se aproximou devagar, sentando-se na beira da cama. Com cuidado, afastou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela.
Ele se inclinou levemente, respirando o perfume suave que sempre parecia acalmá-lo, e, ao mesmo tempo, torturá-lo.
— Desculpa... eu não consegui te encarar mais uma vez. — murmurou, quase inaudível. Seus dedos tocaram de leve o rosto dela, com cuidado para não acorda-la.— Será que, se você souber quem eu realmente sou… e por que me aproximei de você... ainda vai querer ficar?

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