Ela piscou, sem conseguir puxar o ar que parecia travado nos pulmões.
— Qu… quatro? — ela mal reconheceu a própria voz.
— Olha você mesma. — Ele riu baixinho, ainda surpreso. — Você tem quatro vidas lindas aqui dentro.
Ela olhava para a tela sem acreditar. Eram tão pequenos, tão frágeis. Mas estavam realmente ali, quatro corações, batendo forte.
Álvaro abraçou a filha com lágrimas nos olhos, a emoção escapando ao perceber que se tornaria avô.
— Ainda não estou acreditando, minha filha… — murmurou, limpando o rosto dela com a ponta dos dedos, a voz embargada.— É do senhor De Valliére?
Ele perguntou e o corpo dela paralisou por um breve momento.
— Sim, pai. São dele.— Respondeu hesitante, com medo da reação de Álvaro.
— Minha filha... vocês serão ótimos pais.— foi tudo que Álvaro conseguiu dizer.
O peito de Milena se apertou de um jeito que nunca sentiu antes. As lágrimas vieram sem aviso. E mesmo diante do medo, elas estavam cheias de amor.
Antes de sair do consultório, Milena olhou para o médico. Ele já segurava o celular, claramente em dúvida se contava a Olavo ou não.
Ela sabia o que Olavo havia deixado claro:"Quero saber tudo sobre eles. Nada deve passar despercebido.” Mas aquele momento não era dele.
Milena respirou fundo.
— Doutor… por favor. Não conte para ninguém ainda. Eu quero dar essa notícia para o Marcelo primeiro.
O médico hesitou por um segundo, mas então colocou o celular de volta na mesa e sorriu.
— Será como quiser.
Milena agradeceu e saiu do hospital. Mais tarde, sozinha no carro, encostou a testa no vidro frio. O choro veio forte, sem controle, como se estivesse segurando um rio inteiro desde o momento em que viu a tela do ultrassom. Era um misto de euforia e desespero. Ela pousou as mãos sobre o ventre.
— E agora... como vai ser?—sussurrou.
As lágrimas voltaram, cortando o rosto quente, queimando as pálpebras.
— Como eu vou proteger vocês? — murmurou, engolindo o choro. — Como eu vou deixá-los, se for preciso? Como vou entregar vocês para uma mulher que eu nem sei se vai amar você?
A dor naquela pergunta era uma lâmina. Milena sentia o peito rachar só de imaginar. Ela lembrou do que Marcelo disse pela manhã, sobre ficar ao lado dela, sobre não se afastar, sobre construir algo juntos. Ele parecia tão sincero que parte dela acreditou.
O cenário, antes inofensivo, ganhou contornos sombrios. E então, nos minutos seguintes, a verdade surgiu com tanta clareza que Milena sentiu as pernas fraquejarem.
O vídeo avançou alguns segundos e então a cena mudou.
Marcelo aparecia sentado em um banco de uma praça, o casaco escuro aberto pelo vento leve do fim de tarde. A câmera tremia um pouco, mas dava para ver o sol atravessando as árvores.
Até que Kethelyn surgiu por trás, deslizando os braços ao redor do pescoço dele com intimidade ensaiada. A risada dela ecoou nítida, leve, como se estivesse contando algo divertido ao ouvido dele.
Marcelo não a olhou de imediato. Seu olhar estava fixo em algum ponto à frente, algo ou alguém fora do enquadramento, e então, lentamente, ele sorriu.
Um sorriso cheio, raro, despreocupado. Um sorriso que Milena nunca tinha visto.
A imagem vibrava com naturalidade demais, como se fosse a memória perfeita de dias pessoas que se encaixavam.
Tudo em Milena começou a ruir. O estômago revirou. A garganta travou. O coração doeu de um jeito que parecia físico.
Logo em seguida, a mensagem de texto chegou.
“Nunca esqueça o que você é. E o que não é. Esse sorriso, ele nunca será seu. E esses bastardos que você carrega, nunca serão De Valliére legítimos. Você é só a sombra barata da mulher que ele ama há anos. Um erro que um dia ele vai se cansar e descartar. Aproveite os últimos momentos com ele, por que no fim, ele sempre volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído. E você será só um contrato mal feito que eu farei questão de destruir”

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