Ela desviou o olhar para a porta fechada. Marcelo seguiu seu olhar e fechou os olhos por um momento.
Milena vendo a reação dele, respirou fundo.
— Marcelo? — chamou suave. — Aquele também era o quarto da… Kethelyn?
Ele apertou seus dedos de leve, o peito doendo. Uma dor que vinha de muitos anos atrás.
Milena sentiu o ar ficar mais pesado. Ela se arrependeu no mesmo instante de perguntar.
— Marcelo... me desculpa! — disse, dando um passo para trás. — Era só curiosidade, eu sei que ela é importante pra você. Não precisa falar nada. Eu só…
Marcelo finalmente se moveu, ele a observava com algo indecifrável nos olhos.
Ela tentou sorrir, mesmo com o coração acelerado.
— Está tudo bem...— continuou.— Não precisa falar nada se não quiser.
Um músculo na mandíbula dele se contraiu. Milena percebeu que ele lutava com algo interno, algo que roía suas memórias.
Ela deu um passo para trás, pegou a corrente e, com um gesto hesitante e estendeu para ele.
— Acho que isso é seu… e dela... — murmurou.
Marcelo arregalou os olhos. O movimento foi mínimo, mas devastador. Sua respiração falhou. A garganta apertou. Ele não pegou a corrente de imediato.
— Onde achou isso?— ele perguntou com a voz baixa.
Milena estreitou os olhos confusa.
— Encontrei caída ao lado da foto dela... isso te trouxe alguma lembrança ruim?
O olhar dele finalmente encontrou o dela. Era um olhar quebrado e doloroso e isso fez com que o coração de Milena se apertasse.
— Marcelo? — chamou baixinho, quase com medo. — Eu falei algo errado?
Ele soltou o ar de forma trêmula, olhou para os lados e ficou o olhar num quadro a frente. De repente, num movimento suave e inesperado, puxou-a para um abraço.
Ela hesitou por um instante, mas logo encostou o rosto em seu peito, ouvindo o coração dele completamente descompassado.
— Você sempre acha que meu silêncio está ligado a Kethelyn...— ele murmurou contra o cabelo dela. — Mas não está.
Ela apertou o abraço. Ele sorriu baixo, quase irônico diante da confusão dela.
— Milena… — ele disse, afastando-se só o suficiente para olhar nos olhos dela. — Quer entrar no quarto?
Ela arregalou os olhos.
— O q-quarto? Digo… esse quarto? — a voz falhou.
— Sim. Sei que sempre quis saber o que tem atrás dessa porta.
Ela respirou fundo, nervosa.
— Acho melhor não… — disse fraco. — Deve ser um lugar muito importante para vocês. Eu não…
Marcelo entrelaçou os dedos aos dela.
— Vocês?— ele disse ainda sem acreditar que ela ainda achava que o quarto era de Kethelyn.
Ela baixou o rosto nervosa.
A respiração de Milena falhou.
Marcelo estava com a voz embargada. Seu olhar estava úmido, vidrado num ponto do quarto que só ele enxergava.
— Foi por causa de uma mulher… — ele continuou, apertando as mãos. — Uma mulher que destruiu tudo que ela lutou para conseguir, tirou tudo dela. Levou ela ao limite.
Milena sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Alguém… machucou sua mãe? — ela perguntou num fio de voz.
Marcelo levantou os olhos e assentiu levemente.
— Sim. Alguém que deu motivos para minha mãe não suportar mais viver... foi naquela cama ali... que ela tirou a própria vida.
A garganta de Milena se fechou, seu peito ardeu e as lágrimas inudaram seus olhos. Ela deu dois passos até ele e abraçou seu pescoço com força.
Marcelo fechou os olhos. As mãos demoraram um segundo a reagir.
— Marcelo… eu sinto muito… sinto muito… — suas palavras tremiam, afogadas em lágrimas que ela nem percebeu que começou a derramar.
Suas mãos pousaram na cintura dela, puxando-a contra si num gesto que dizia tudo o que ele não estava preparado para colocar em palavras.
— Nunca deixei ninguém entrar aqui, Milena... nem mesmo meu avô.
Ela levantou o olhar um pouco hesitante.
— Por que eu? — ela perguntou.
— Para que você entenda... que quem eu quero ao meu lado é você e ninguém mais.

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