O tempo passou de forma silenciosa. Quando Milena completou seis meses de gravidez, o corpo já não escondia mais. A barriga arredondada anunciava as quatro vidas crescendo dentro dela, exigindo espaço, energia e cuidado. O cansaço veio primeiro, depois os enjoos mais frequentes, a respiração curta ao subir poucos degraus, o sono irregular.
E, junto com tudo isso, vieram eles. Marcelo não falhava. Ajustou a rotina, os horários, as viagens. Quando podia, a levava com ele, hotéis tranquilos, jantares leves, voos mais curtos. Quando não dava, fazia questão de garantir que ela não ficasse sozinha. Os muitos problemas que o rondavam eram camuflados por sorrisos disfarçando a dor.
Álvaro se tornou presença constante na mansão. Aparecia com frutas cortadas, chás que dizia ajudar no enjoo, histórias repetidas que Milena já sabia de cor, mas escutava mesmo assim. Havia algo reconfortante em tê-lo ali, como se aquele cuidado silencioso preenchesse um espaço que ela nem sabia que doía.
E entre eles estava Lívia. No início, foi Marcelo quem sugeriu.
— Ela é enfermeira. — explicou, ocultando o fato que Lívia era na verdade uma segurança. — E ela é boa. De verdade.
Milena desconfiou no começo. Não por ciúme, mas por receio. Pessoas novas ainda a deixavam em alerta. Mas bastaram poucos dias para que Lívia deixasse de ser “a enfermeira que a seguia por todos os lados” e se tornasse simplesmente alguém que ficava.
Ela não invadia. Não fazia perguntas demais. Sabia quando falar e quando só sentar no sofá ao lado, com uma xícara de chá quente entre as mãos.
Foi numa dessas noites, com Marcelo viajando e Álvaro já recolhido, que a amizade se revelou de vez.
Milena estava de pijama largo, cabelos presos de qualquer jeito, sentada no balcão da cozinha. Uma panela pequena no fogo, o cheiro doce de chocolate tomando o ambiente.
— Você tem certeza que isso não vai queimar? — Lívia perguntou, desconfiada, abraçando uma almofada como se fosse um escudo.
— Confia em mim. — Milena respondeu, mexendo o brigadeiro com concentração exagerada. — Eu já fiz isso umas… duas vezes na vida.
— Isso não me tranquiliza nem um pouco.
Milena riu, aquela risada solta que vinha aparecendo com mais frequência.
Minutos depois, as duas estavam no sofá, cada uma com uma colher direto da panela, a televisão ligada em um filme de terror claramente escolhido por Milena.
— Eu não entendo como você consegue assistir isso grávida. — Lívia murmurou, já encolhida, os olhos semicerrados. Ela odiava filme de terror.
— Dizem que os bebês sentem menos medo quando a mãe enfrenta. — Milena provocou, levando outra colherada à boca.
— Isso é mentira.
— Total. Mas funciona com você.
No primeiro susto do filme, Lívia deu um pulo e praticamente se escondeu atrás de Milena.
— Que susto, Lívia! — Milena riu, segurando a barriga.
— Desculpa! — ela respondeu, rindo também. — Mas olha isso, isso não é humano!
Milena se inclinou e sussurrou.
— Vem cá. Que tipo de segurança é você que tem medo de um negócio desse?
Lívia arregalou os olhos e baixou a cabeça.
Ela assentiu. Estava cansada, o tipo de cansaço que vinha de dentro, dos ossos. Enquanto Lívia sentava atrás do volante, Milena estendeu a mão para apoiar a bolsa no banco, foi quando sentiu algo duro pressionar sua cintura.
Ela congelou. A respiração travou.
— Não grita. — a voz masculina soou perto demais do ouvido dela. — Não faz nada que eu não mandar.
O coração de Milena começou a disparar tão forte que parecia querer explodir. O homem se aproximou mais, o corpo colado às suas costas.
— Marcelo sabia que isso ia acontecer se continuasse com você. — murmurou. — Não se preocupe. Hoje você não vai morrer... mas não garanto que seus filhos tenham a mesma sorte.
Os olhos dela se encheram de lágrimas no mesmo instante. A mão foi instintivamente para a barriga, num gesto de proteção desesperada.
Lívia pelo reflexo do vidro do carro, viu o homem atrás de Milena. Sem dizer uma palavra, fechou a porta com cuidado. Caminhou para o outro lado do carro, fingindo procurar algo no bolso. Cada passo calculado, silencioso.
Quando chegou perto o suficiente, agiu.
Segurou o braço do homem e puxou com força, girando o corpo dele. A faca, escorregou da mão dele e caiu no chão com um som seco.
— Milena, corre! — Lívia gritou.
Mas o homem reagiu rápido demais. Ele levantou, empurrou Lívia com violência e se lançou na direção de Milena, que mal teve tempo de se mover.
— Não...

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