As palavras de Katherine ecoaram no bar.
O copo entre os dedos de Marcelo tremeu levemente. Ele apertou a mão em volta do vidro como se isso pudesse ancorá-lo ali. O ar pareceu não entrar nos pulmões. Tudo em volta ficou mudo. O riso, a música, as conversas. Ele ficou parado, o corpo inteiro tenso.
Milena que estava poucos passos ouviu e o sorriso que ela ensaiava desapareceu. Seu olhar correu até os de Marcelo, procurando alguma emoção no rosto dele. Não encontrou nada além de rigidez.
— Marcelo… — chamou, baixo.
Ele respirou fundo e finalmente virou-se para Milena.
— Está tudo bem, amor. — disse, mas não conseguiu sustentar o olhar dela por mais de dois segundos.
Katherine sorriu ao ver o medo atravessar o olhar de Milena, ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Você deve isso a ela Marcelo. Ela te amou todos esses anos. Assim que saiu do coma a primeira coisa que perguntou foi onde você estava. Para ela, você ainda é o noivo dela. O homem que a mimava e protegia. Não seja um babaca agora que ela precisa de você.
Assim que terminou de falar, ela e se afastou, misturando-se às pessoas.
A noite para eles terminou ali. Ninguém conseguia demonstrar realmente o que estavam sentindo.
No caminho de volta, o carro parecia menor. O silêncio pesava. Milena observava a cidade pela janela, mas a mente estava longe. Marcelo dirigia com atenção demais, apertava o volante com força excessiva. Os nós dos dedos estavam brancos. Soltou só quando percebeu a dor.
Ao chegarem à mansão, ele ajudou Milena a descer com cuidado.
— Amor...— Ela falou buscando seu olhos.
— Vai ficar tudo bem. — ele disse.
Dentro da casa, ele a conduziu até o sofá. Ajoelhou-se à frente dela, segurando suas mãos.
— Eu vou ao hospital. — disse direto, sem rodeios. — Mas antes eu preciso que você me escute.
Milena assentiu, o coração batendo forte no peito.
— Ela ter acordado não muda o que eu sinto por você. — continuou. — Nada muda o que nós temos. Eu te amo, amo nossos filhos. E eu volto pra casa hoje.
Ela engoliu em seco.
— Eu sei. — respondeu, mesmo sem ter certeza absoluta.
Marcelo inclinou-se e a beijou com cuidado, depois apoiou a testa na dela por um instante.
— Descansa. — disse. — Qualquer coisa, me liga.
Ele se levantou e virou para sair.
— Marcelo...
Assim que ouviu a voz dela o chamando, ele parou. Ela se levantou e foi até ele, o abraçando pela cintura.
— Eu te amo...— disse Milena quase num sussurro.
Eles se olharam por um instante, num gesto carinhoso, beijou a testa dela e sorriu.
Quando a porta se fechou, Milena voltou a se sentar, permaneceu ali por alguns segundos, sentindo o vazio ocupar o espaço deixado por ele. Depois subiu lentamente para o quarto. Deitou-se, a mão automaticamente sobre a barriga.
— O papai... ele vai voltar...— Murmurou.
Os bebês se mexeram fazendo-a suspirar. Ela fechou os olhos, querendo acreditar que tudo ficaria bem. Mas a inquietação não a deixou dormir.
Lívia que estava preocupada, entrou no quarto e Deitou ao seu lado, entrelaçando os dedos nos de Milena.
— Kath me contou que você não vinha mais. — disse, num tom calmo demais. — Eu te entendo. Para você deve ter sido difícil me ver daquele jeito por tanto tempo.
Ele engoliu em seco.
— Nem acredito que fiquei tanto tempo inconsciente. — ela continuou. — Às vezes parece que acordei num mundo que não é mais meu.
Marcelo deu alguns passos e parou ao lado da cama.
— Eu sinto muito. — disse. — Por tudo.
Ela sorriu de leve.
— Você está diferente. — observou. — Mais sério, mais forte e muito mais bonito.
Ele a olhou e logo baixou a cabeça.
Kethelyn respirou fundo. Ela abriu os braços e com um sorriso vacilante nos lábios disse:
— Por que não vem aqui me dar um abraço? Eu estava com tanto medo de você não querer me ver.
Ela estendeu a mão, Marcelo hesitou, e logo deixou que ela segurasse sua mão, mas não retribuiu o aperto. Kethelyn fechou os dedos ao redor dos dele com força surpreendente para alguém tão frágil. E sorriu.
— Os médicos disseram que eu não vou mais andar... que minha vida será presa numa cadeira de rodas...
Marcelo sentiu o mundo desmoronar.
— Aquele acidente não só me fez perder quase sete anos da minha vida, como também me tirou a capacidade de andar.— Kethelyn apertou novamente os dedos nos dele.— Promete para mim que nunca vai me abandonar?
Ele abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu.

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