Marcelo permanecia imóvel na cama, pálido, ligado aos aparelhos. O curativo espesso cobria parte do abdômen, e o soro descia lentamente pelo acesso em seu braço.
Milena estava sentada ao lado dele desde que a cirurgia terminou, passou a noite em claro, com medo que algo pudesse acontecer se dormisse.
Ela segurava a mão dele, como se soltá-la fosse perigoso.
— Por que as coisas entre a gente sempre tem que ser tão difíceis… — sussurrou — Por favor, amor, fica bem... por mim, por nossos filhos.
Os olhos ardiam de tanto chorar. Ela encostou a testa nas costas da mão dele.
— Você não pode me deixar… precisa me ajudar parar aquela mulher.— ela sussurrou tão baixo que nem som saía.
As horas avançavam devagar. Enfermeiras entravam e saíam, verificavam os aparelhos, falavam baixo. Milena mal compreendia o que era dito..
Alan estava sentado no sofá do outro lado do quarto. Também não tinha ido embora. De vez em quando se levantava, olhava pela janela, mas sempre lá.
Quando o relógio marcou quase cinco da manhã, Milena já estava em prantos outra vez. O medo aumentava conforme o tempo passava.
— Ele vai acordar, não vai? — ela perguntou com a voz falhando.
Alan se aproximou.
— A cirurgia correu bem, Milena. O médico foi claro. O tiro atingiu o abdômen, mas não perfurou nenhum órgão vital. Foi grave, mas ele é forte. Pela manhã ele deve acordar.
Ela assentiu, mas a angústia não diminuía. O dia começou a clarear. Milena ainda segurava a mão dele quando percebeu um movimento leve nos dedos. Ela ergueu a cabeça rapidamente.
— Amor?
Os cílios dele tremeram. A testa se franziu de leve.
— Marcelo… — a voz dela saiu embargada.
Os olhos dele se abriram devagar, confusos no início. Demorou alguns segundos até focar. Quando finalmente a enxergou, algo mudou no olhar.
— Minha... princesa… — a voz saiu fraca, arrastada.
Ela começou a chorar de novo, mas dessa vez de alívio.
— Eu estou aqui… eu estou aqui…
Ele tentou se mexer, mas fez uma expressão de dor.
— Não… não se mexe. Fica quietinho. — ela pediu, passando a mão com cuidado pelo rosto dele.
— Você está chorando… — ele murmurou.
— Porque você quase me matou do coração.
Um sorriso fraco apareceu nos lábios dele.
Alan respirou aliviado no fundo do quarto.
— Seja bem-vindo de volta, Marcelo. — disse.
Marcelo virou levemente o rosto.
— Pegaram o atirador?
— Depois você conversa... — Milena interrompeu. — Agora só descansa.
Ela se inclinou e o abraçou com cuidado, evitando tocar o curativo.
Os dias seguintes passaram devagar. Marcelo ficou internado sob observação. A dor era controlada com medicação. Os médicos explicaram que ele precisaria de repouso absoluto por algumas semanas.
Milena não saiu do lado dele. Ajudava a comer. Ajustava o travesseiro. Chamava a enfermeira. Segurava a mão dele sempre que ele adormecia.
Mas algo dentro dela não estava em paz. O celular vibrava de vez em quando. Números desconhecidos. Mensagens que ela não abria na frente dele. Ela apagava e silenciava. Sorria para Marcelo. Chorava sozinha no banheiro do hospital.
Após uma semana Marcelo começava a se sentir melhor. Ainda estava com dor, mas não demonstrava para não assustar Milena.
Ele estava sentado na cama, apoiado por alguns travesseiros, movimentos lentos e cuidadosos.
— Pela frustração já está com saudades de casa e do trabalho né? — ela perguntou, virando-se para ele.
— Muita. Vivo nesses corredores do hospital, mas havia me esquecido de como era ser um paciente.

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