“Algumas histórias começam como contratos e insistem em terminar em escolhas.”
Elena levou alguns segundos antes de voltar.
O corredor do hospital parecia mais longo do que antes, como se o beijo tivesse alterado a escala das coisas. O coração ainda batia acelerado dentro do peito, descompassado, insistente, como se tivesse esquecido o ritmo correto e agora se recusasse a reaprender.
Ele havia a beijado.
E não foi um beijo distraído, nem gentil demais para ser esquecido. Tinha sido intenso, decidido, carregado de algo que não se explica com lógica.
Se ele a beijou, era porque sentia saudade. E se sentia saudade… era porque se importava.
A ideia pousou na mente de Elena com cuidado, como se pudesse quebrar se pensada alto demais.
— Deus… será que? — murmurou para si mesma, diminuindo o passo. — Calma, Elena. Calma.
A palavra calma soava quase irônica. Porque nada daquilo tinha começado de maneira calma.
Começou no excesso, no improvável. No absurdo elegante de um leilão onde ela havia participado por desespero, de salvar a única pessoa que amava.
Ela se lembrava perfeitamente. Lembrava da primeira vez que os olhos deles se cruzaram. Foi como se algo silencioso tivesse sido ativado no exato instante em que ele a viu e ela sentiu.
Depois veio o contrato frio, claro e objetivo. “Você é minha por seis meses….” Tudo aquilo fazia sentido para alguém como ele, mas para ela não. Porém durante semanas ele não a tocava. No início, ela agradecia, mas depois ela se questionava. Até o dia em que houve o primeiro beijo e naquele instante, ela desejou por mais.
Muito mais…
Quando foi que a linha se cruzou?
Quando o contrato deixou de ser apenas um acordo e passou a ser uma história?
Quando o cuidado virou presença?
Quando o olhar virou silêncio carregado de intenção?
Nada em sua história combinava com contos de fadas. E, ainda assim, tudo parecia exatamente como. Agora ali estava ela, andando por um corredor de hospital com os lábios ainda quentes do beijo de um homem rico, poderoso e impossível para si.
Ela se apoiou por um instante na parede fria, fechando os olhos. Pensou no jeito como Damian tinha se abaixado para falar com Sophia, como se o mundo inteiro tivesse diminuído para caber naquele gesto. Nenhum homem que fingia fazia isso. Nenhum homem que não se importava agiria assim.
E isso era o que mais a assustava.
Porque contos de fadas são bonitos até o momento em que se percebe que eles também exigem escolhas.
Elena abriu os olhos e respirou fundo.
Talvez fosse cedo demais para chamar aquilo de destino, ou ela estivesse romantizando o improvável porque o coração estava cansado de sobreviver.
Mas havia algo ali. Algo real o suficiente para fazer o amanhã parecer urgente e perigoso o bastante para fazê-la querer desacelerar e falhar miseravelmente.
Ele havia dito que viria buscá-las amanhã… mas para onde iriam?
— Posso sim — retrucou a menina, com a segurança de quem já decidiu o assunto. — Você ficou toda vermelha. É assim que as pessoas ficam quando são beijadas nos filmes.
— Nem tudo que acontece nos filmes acontece na vida real — Elena respondeu, tentando manter alguma autoridade.
Sophia inclinou a cabeça para o lado, analisando a irmã como se estivesse diante de um enigma interessante.
— Mas isso aconteceu — disse. — Eu vi.
— Você não viu nada.
— Vi seu rosto quando você entrou — Sophia rebateu, sem perder o ritmo. — E vi o jeito que você fechou a porta. Quando você fecha a porta assim, é porque aconteceu alguma coisa importante.
Elena abriu a boca para responder… e fechou de novo.
— Você anda muito observadora.
— Eu fico muito tempo deitada — explicou Sophia, dando de ombros. — A gente aprende a observar quando não pode correr.
Aquilo acertou Elena em cheio.
Ela se aproximou da cama, sentando-se na beirada, e passou os dedos pelos cabelos da irmã com carinho, tentando afastar o aperto que se formava no peito.
— E você… — Sophia continuou, mais suave agora. — Você agora está feliz.

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