“O desejo não nasce no toque. Ele nasce no esforço de não tocar.”
O setor em que Sofia passou as últimas semanas estava diferente naquela manhã, não apenas mais claro ou mais movimentado, mas vivo de um jeito que Elena não lembrava de ter visto antes. O corredor que antes era marcado por passos cuidadosos e vozes baixas agora vibrava com uma alegria quase indisciplinada, como se o próprio hospital tivesse relaxado os ombros depois de um longo período de contenção.
As enfermeiras sorriam sem disfarçar, algumas passavam apressadas com prontuários debaixo do braço, outras paravam por segundos a mais do que o permitido apenas para olhar para dentro do quarto que mais parecia um conto de fadas e confirmar, mais uma vez, que aquela garotinha tinha mesmo vencido.
As médicas falavam animadas perto do balcão, trocando comentários técnicos misturados a pequenas comemorações pessoais, porque havia casos que deixavam marcas, e Sofia era um deles.
— Finalmente. — murmurou uma enfermeira, como quem fecha um ciclo difícil.
Dentro do quarto, Sofia parecia sentir tudo isso no corpo.
Sentada na cama, com as pernas balançando no ar sem parar, ela usava um vestido rosa claro, rodado o suficiente para acompanhar cada movimento exagerado que fazia ao falar, e uma tiara dourada, posicionada com cuidado estratégico no topo da cabeça, como se fosse um símbolo oficial daquele dia. Os fios ruivos, ainda finos, começavam a crescer novamente, criando uma moldura delicada ao redor do rosto cheio de vida, e Elena precisou conter a vontade de chorar só de olhar.
Ela estava elétrica. Falava rápido, fazia perguntas, inventava histórias no meio das frases e ria antes mesmo de terminar de contar.
— Lena. — chamou, inclinando o corpo para frente com um sorriso conspiratório, e os olhos brilhando de curiosidade. — Você acha que eu pareço uma princesa ou uma rainha?
Elena riu, aproximando-se para ajeitar a tiara que insistia em escorregar para o lado.
— Depende. — respondeu, fingindo analisar com seriedade. — Se você mandar em todo mundo hoje, é rainha. Se só ganhar presentes e abraços, princesa.
Sofia pensou por dois segundos inteiros.
— Então eu vou ser as duas. — decidiu. — Porque hoje eu mando e ganho abraços.
— Justo. — Elena concordou, beijando a testa dela. — Muito justo.
Sofia abriu um sorriso largo, depois estreitou os olhos, curiosa demais para deixar o assunto morrer ali.
— Lena… — começou de novo, abraçando o ursinho Mel contra o peito. — Quem vem buscar a gente?
— A tia Beatrice. — respondeu Elena, tranquila.
Sofia fez um biquinho dramático, desses treinados com perfeição.
— Só a tia?
Elena arqueou a sobrancelha, divertida.
— O que foi agora?
Sofia se inclinou ainda mais, baixando a voz como se estivesse contando um segredo proibido.
— É que as tias falaram que hoje é dia especial. — explicou. — E dia especial precisa de pessoas especiais.
— E a tia Bia não é especial? — provocou Elena.
— É. — Sofia assentiu rápido. — Mas… o seu namorado também é e ele prometeu que vinha buscar a genre. — completou cruzando os braços contra o peito.
Elena congelou por um segundo.
— Sofia… — começou, tentando organizar as palavras com cuidado. — Ele não é…
— Ele é sim Lena muito bonito. — interrompeu Sofia, empolgada.
— Ele é… — Elena respirou fundo. — Complicado.
— Todo príncipe é complicado. — decretou Sofia, dando de ombros. — O importante é que ele gosta de você e faz você ficar feliz.
Elena permaneceu parada. Observava a interação da irmã com a amiga, mas seu corpo sentiu o impacto quando os olhos de Damian a encararam com intensidade. Por um momento, Elena quis correr como Sophia, mas para os braços dele. Quis beijar aquela boca e sentir o calor daquelas mãos sobre o seu corpo, como ontem, mas se conteve e permaneceu onde estava.
Damian não se aproximou de imediato. Apenas ficou ali, observando, com aquela atenção silenciosa que fazia parecer que ele enxergava mais do que devia. Viu o modo como Elena segurava as mãos à frente do corpo, como se precisasse de algo para se ancorar, e viu também o cansaço ainda presente nos ombros, misturado a uma força teimosa que ele reconhecia.
— Lena! — chamou Sofia novamente, soltando-se de Beatrice. — Eu vou com a tia Bia me despedir das tias, tá?
Sem esperar resposta, ela já tinha puxado o braço de Beatrice, praticamente arrastando-a para fora do quarto.
— Vamos logo, senão elas vão achar que eu esqueci delas!
A porta se fechou atrás das duas e o silêncio tomou conta do local.
Elena deu dois passos à frente, sentindo o coração bater forte demais para alguém que tentava parecer calma, e parou a poucos centímetros de Damian.
— Obrigada por ter vindo.
Damian se aproximou e segurou sua mão com delicadeza e manteve os dedos sobre os dela por um instante a mais do que o necessário, como se estivesse medindo o próprio limite, e então se inclinou levemente, o suficiente para que apenas ela ouvisse.
— Você não faz ideia do esforço que estou fazendo para não te beijar agora. — murmurou Damian, tão baixo que a frase pareceu existir apenas entre os dois.
Elena estremeceu.
Não foi algo visível para qualquer outra pessoa, mas ele percebeu o leve enrijecer do corpo, a respiração que falhou por um segundo, o modo como ela apertou os dedos antes de mordiscar o lábio inferior num gesto involuntário, quase instintivo, como se precisasse conter algo que ameaçava escapar.
O sangue subiu quente para o rosto, denunciando-a, e o coração disparou de um jeito indisciplinado. Ela ergueu o olhar devagar, encontrando o dele, e por um instante não tentou esconder nada: havia desejo claro, intenso, refletido nos olhos verdes, na forma como o encarava sem recuar.
Damian sustentou aquele olhar por tempo demais. Tempo suficiente para entender que não estava sozinho naquela vontade e para reconhecer que ela queria exatamente o mesmo.
Sophia e Beatrice voltaram para o quarto e Damian se afastou, como se nada tivesse acontecido, deixando para trás apenas o calor do seu toque e a certeza perigosa, de que assim como ela o desejava, ele também a queria, talvez até mais do que estava disposto a admitir.

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