“Alguns lugares não mudam. Até que alguém chega e ensina como viver.”
A mansão Cavallari sempre soube conter o mundo. O que ela nunca aprendeu foi o que fazer quando alguém chegava para viver dentro dela.
A mansão Cavallari não tinha o costume de receber alegria em volume alto.
Ela recebia visitas importantes, reuniões em horários absurdos, silêncio caro, passos contidos e ordens que eram dadas com a mesma frieza com que se servia vinho raro. Era uma casa feita para impressionar e para controlar.
Por isso, quando o helicóptero pousou e Sofia desceu a pequena escada com o vestido rosa girando ao redor das pernas, a tiara dourada firme como uma coroa e os olhos brilhando como se tivesse acabado de ganhar o mundo… foi como se alguém tivesse aberto uma janela em um lugar onde janelas nunca foram necessárias.
Sofia parou no meio do pátio, olhando para cima, para a fachada imensa, para as colunas, para as janelas altas, para os jardins impecáveis que pareciam ter sido penteados naquela manhã, e soltou um som que era metade suspiro, metade grito de felicidade.
— Uau…
Elena ficou atrás por um instante, tentando respirar sem deixar a emoção desorganizar tudo de novo. Beatrice desceu logo em seguida, segurando a mão de Sofia com firmeza, como se quisesse garantir que aquela euforia não virasse um tropeço.
Damian foi o último a sair.
A camisa de botões ainda estava levemente amassada, o cabelo ainda mais bagunçado do que antes, e mesmo assim ele parecia… imenso. Como se a casa inteira, com toda a sua grandeza, ainda fosse uma extensão dele.
As portas principais se abriram antes mesmo de chegarem perto.
Maria, a governanta, aguardava com duas empregadas ao lado, vestindo um uniforme discreto, mas com uma ternura difícil de esconder no rosto. Seus olhos pousaram em Sofia como quem reconhece, instantaneamente, que aquela criança não era apenas uma convidada, era algo mais.
— Senhorita Sofia. — disse Maria, inclinando-se um pouco, respeitosa e carinhosa ao mesmo tempo. — Bem-vinda.
Sofia arregalou os olhos, porque ninguém tinha chamado seu nome daquele jeito, como se fosse uma princesa de verdade.
— Você é uma fada? — perguntou, sem cerimônia, com a voz cheia de seriedade infantil.
Elena levou a mão à boca, surpresa com o impulso de rir e chorar ao mesmo tempo.
Maria piscou, confusa por um segundo, até perceber que aquilo era o jeito de Sofia fazer amizade.
— Eu… eu acho que não, senhorita.
— Você tem cara de fada. — Sofia concluiu, satisfeita, caminhando até ela com o ursinho Mel apertado contra o peito. — E sua casa é gigante. É sua?
Maria olhou, instintivamente, para Damian, como se pedisse permissão para responder uma criança que parecia não conhecer o conceito de limite.
Damian apenas inclinou levemente a cabeça, numa autorização silenciosa, fazendo a governanta sorrir de verdade.
— Esta casa é do senhor Cavallari. — explicou. — Mas hoje ela é sua também.
Sofia abriu um sorriso tão grande que parecia impossível caber no rosto.
— Então eu posso correr?
Beatrice fez menção de repreender, mas Maria foi mais rápida, com um humor suave.
— Pode. Mas com um acordo…
Sofia parou no meio do caminho, interessada.
— Qual acordo?
Maria se agachou um pouco para ficar na altura dela.
— Você corre… e eu finjo que não vi.
— TIA BIA! — Sofia gritou, rindo alto, tentando acompanhar. — NÃO CORRE! VOCÊ VAI CAIR!
O som da risada das duas atravessou o hall, ecoando pela mansão como um tipo de música que aquele lugar não ouvia há anos.
Elena ficou parada por um segundo, assistindo a cena sentindo a garganta fechar de emoção. Damian se aproximou por trás, sem pressa, como sempre fazia quando se tratava dela, como se estivesse entrando em um território que não se conquista, apenas se respeita.
Elena sentiu o calor do corpo dele às costas, a presença firme para ser ignorada e próxima para ser casual. Antes que pudesse se virar, os braços de Damian a envolveram pela cintura, sólidos, protetores, puxando-a suavemente contra o peito dele, como se aquele gesto tivesse sido pensado, medido e desejado por tempo demais.
O ar faltou por um segundo.
Ela inspirou fundo quando os lábios dele tocaram seu pescoço, logo abaixo da orelha, num beijo lento, delicado e íntimo para ser inocente. A pele de Elena respondeu de imediato, um arrepio percorrendo a espinha inteira, fazendo-a fechar os olhos sem conseguir evitar.
As mãos dela apertaram as dele, buscando equilíbrio.
Damian manteve a testa próxima ao pescoço dela por um instante, respirando o local, antes de se inclinar um pouco mais e sussurrar, com a voz baixa, quente e perigosamente calma:
— Vai com elas…
A frase deslizou pela pele dela com o mesmo efeito do beijo.
Elena sorriu, ainda estremecida, mordeu o lábio inferior num gesto involuntário, tentando conter o que o corpo inteiro pedia, e assentiu devagar, como se aquela simples autorização fosse, na verdade, uma promessa silenciosa.
E quando se afastou para ir atrás de Sofia e Beatrice, levava consigo mais do que obediência.
Levava a certeza de que aquele toque não tinha sido um impulso, tinha sido um aviso.
E avisos não pedem resposta imediata.
Eles apenas anunciam que algo foi despertado e que o silêncio, a partir dali, jamais voltaria a ser o mesmo.

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