Damian Cavalari
O corredor estava silencioso quando parei diante da porta do quarto onde havia mandado Elena esperar horas antes.
O som das águas ao meu redor era a única coisa que era possível ser ouvida naquela madrugada fria. Era como se o próprio ar soubesse que eu estava prestes a cruzar uma linha que não deveria sequer considerar.
Soltei o ar devagar, sentindo o cheiro de uísque impregnado na gola da minha camisa.
Eu havia bebido.Não o suficiente para perder o controle, nunca chego tão longe, mas o bastante para despir as amarras que normalmente me mantinham humano. O bastante para despertar os demônios que eu mantinha enterrados.
A gola da camisa estava entreaberta, três botões soltos, a manga, dobrada de qualquer jeito. Os cabelos, que eu mantinha sempre impecáveis, estavam desalinhados, denunciando que eu tinha passado mais as mãos pelos fios do que gostaria de admitir. Não me importei com nada disso.
Girei a maçaneta e entrei devagar.
Quando meus olhos varreram o quarto, pude ver Elena adormecida sobre a cama e, por um segundo, tudo em mim ficou quieto. Um silêncio tomou conta de mim, um silêncio que não era o do corredor, era mais interno, abrupto, quase violento.
Ela estava deitada de lado, com uma perna dobrada e a outra estendida, como se tivesse tentado se proteger do frio antes de sucumbir ao cansaço. A postura vulnerável era quase infantil, quase pura e isso só me irritou mais.
A primeira coisa que eu vi não foi o rosto dela.
Foi a camisola.
Curta, indecente, feita para provocar, exatamente como eu havia planejado. O tecido revelava parte da coxa. O peito dela subia e descia sob o pano fino, criando sombras macias que qualquer predador apreciaria. E eu não sou exceção.
Eu deveria ter sentido triunfo, domínio e controle absoluto que sempre foi meu direito. E, por um instante… senti.
Meu olhar percorreu seu corpo como lâmina: lento, estudado e cruel. Ela parecia tão quebrável… tão moldável… que quase deu vontade de testar os limites do que eu poderia fazer com ela naquela noite. Mas então meus olhos chegaram ao rosto dela e algo dentro de mim ruiu.
A expressão dela não era sensual, nem provocativa, nem calculada. Era exaustão pura. Uma delicadeza que não pertence ao meu mundo. Um sono pesado, daqueles que só chegam depois do choro.
Meu maxilar travou.
Aquele rosto miúdo, pacífico, completamente entregue ao cansaço, me atingiu como um golpe no estômago.
Um golpe lento, sufocante, cruel, porque não era para doer. Nada disso era para doer.
Eu sabia que ela tinha chorado, conseguia ver os rastros mesmo sem lágrimas presentes. A respiração irregular demais, o rosto ainda quente e ligeiramente corado, alguns fios grudados na lateral da testa. E a mão segurando o lençol como se fosse a única defesa contra um mundo que não dava trégua.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário