Damian Cavalari
A porta da cabine bateu atrás de mim com força suficiente para fazer a madeira tremer, como se o próprio iate tivesse sentido o meu descontrole por dentro.
O silêncio era intenso, exceto pelo som das ondas quebrando contra o casco. O barulho ritmado era irritante, quase provocativo, era como um lembrete constante de que eu estava preso comigo mesmo e com tudo aquilo que eu passei anos tentando enterrar.
Caminhei até o bar embutido, cada passo que dava sob o convés, era firme demais para alguém que deveria estar no comando. Peguei a garrafa de uísque, abri com um estalo seco e servi uma dose generosa. A bebida âmbar deslizou pelo vidro como mel escuro, espesso, quase debochado, como se me desafiasse a continuar fugindo do que eu havia sentido minutos antes.
Levei o copo ao nariz, inspirei profundo e bebi de uma vez só. O líquido desceu queimando pela garganta de maneira familiar, quase reconfortante, mas não queimou o suficiente. Nada queimava o suficiente.
Enchi novamente, repeti o processo e bebi. Mais uma vez, absolutamente nada mudou. Porque mesmo ali, sozinho, tentando sufocar a noite com álcool, o rosto dela continuava surgindo atrás das minhas pálpebras.
Ela adormecida, frágil, vulnerável de um jeito que eu não pedi e não queria ver. Linda de um modo que não tinha direito de ser.
E eu odiei isso. Eu precisava odiar isso.
O copo ainda estava na minha mão quando senti a raiva subir como uma maré negra, rápida, densa, que escalou meu peito como se tivesse vida própria. Antes que eu pudesse pensar, o copo já estava voando contra a parede.
Crack
A explosão de vidro ecoou pela cabine, um som seco, violento, libertador por um único segundo. Os estilhaços se espalharam pelo chão como pequenos lembretes de que nada em mim estava sob controle.
— Idiota — rosnei contra mim mesmo, com o ódio voltado inteiramente para dentro. — Maldito… idiota.
Apoiei as mãos na bancada do bar, pressionando os dedos contra a madeira como se eu pudesse externar a raiva para fora do próprio corpo.
Tentei respirar e falhei miseravelmente porque o ar parecia insuficiente, como se o iate todo estivesse me comprimindo. Eu estava me afogando e, no fundo, sabia exatamente por quê.
Porque naquela cabine, naquela noite, Elena Rossi tinha me afetado e isso era imperdoável.
Fechei os olhos e isso foi um erro fatal. Porque, como sempre acontecia quando a fraqueza tentava entrar, ela apareceu.
Valentina Orsini.
O veneno mais doce que já provei. A mulher que destruiu meu coração como quem esmaga cristal caro só para apreciar o som. A mulher que me jurou amor enquanto se vingava de algo que nunca me pertenceu, uma dor que deveria ter sido destinada ao meu pai, não a mim.
O sorriso dela surgia com nitidez.
A forma como ela dizia meu nome.
As mentiras que sussurrava depois que fazíamos amor, como se fossem declarações eternas.
E, por fim, o olhar de quem estava cumprindo um propósito, não vivendo um sentimento.
Lembrei-me do gosto amargo daquela traição. Do gosto de ser enganado enquanto acreditava que, pela primeira vez, podia sentir algo verdadeiro.
Meus dentes se cerraram com tanta força que a dor irradiou pelo maxilar.
— Amor… — cuspi a palavra, como se fosse algo podre. — Ninguém ama de verdade.
Valentina havia provado isso. Havia me ensinado, com requinte cruel, que o amor não passava de uma transação emocional, um jogo de interesses travestido de promessa eterna.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário