“Há escolhas que não pedem segurança. Elas pedem coragem.”
Elena Rossi
Eu não me arrumava para um jantar.
Estava me preparando para o homem que já tinha atravessado todas as minhas defesas.
O quarto estava em silêncio, um verdadeiro contraste ao turbilhão que acontecia dentro de mim. A luz suave do abajur espalhava sombras delicadas pelas paredes, desenhando contornos lentos enquanto eu permanecia parada diante do espelho, tentando controlar a minha ansiedade.
Passei as mãos pelo vestido mais uma vez, como se precisasse confirmar que ele era real, que aquela noite estava mesmo acontecendo.
O vestido japonês era elegante, mas não inocente. O corte justo moldava minhas curvas com precisão, acompanhando cada linha do meu corpo sem exagero, como se tivesse sido feito para revelar apenas o suficiente. As flores vermelhas bordadas se destacavam contra o fundo escuro, vivas, intensas, enquanto os detalhes verdes surgiam de forma delicada, quase tímida, equilibrando o conjunto com cuidado.
Não havia nada excessivo ali, nenhuma provocação evidente, e ainda assim o contraste era perfeito, a delicadeza que enganava à primeira vista e a sensualidade que se revelava apenas para quem sabia onde, e como, olhar.
Era o vestido que Damian tinha escolhido para mim e isso mudava tudo.
Meus cabelos estavam presos em um coque alto e elegante, deixando o pescoço completamente à mostra. Não foi uma escolha aleatória, foi proposital, não queria barreiras para os lábios dele.
Observei meu reflexo com atenção. A mulher no espelho parecia segura, tranquila. Mas eu sentia o nervosismo crescer por dentro, como um arrepio que subia pela espinha e se espalhava pelo corpo inteiro.
Respirei fundo uma, duas, três vezes.
O coração batia mais rápido a cada segundo que se aproximava da hora. Não estava com medo. Eu já tinha certeza do que eu desejava.
Eu queria Damian.
Queria sentir o peso do corpo dele contra o meu, sem barreiras, sem espaço para recuos. Ansiava sentir o toque dele percorrendo minha pele com a mesma certeza com que ele tomava decisões, o beijo dele demorando, descendo, sem pressa e sem interrupções, como se não houvesse mais nada além de nós. Meu corpo inteiro pedia por ele e eu não tinha mais intenção alguma de lutar contra o que sentia.
Fechei os olhos.
O escritório surgiu inteiro na minha memória, sem nenhum esforço. Lembrei da forma como ele me beijou, como me tocou, de como me fez estremecer. Depois o carinho, o beijo delicado, e a promessa do jantar dita em voz baixa, quase íntima demais para ser um convite.
Meu corpo respondeu à lembrança antes mesmo que eu percebesse. Senti um calor percorrer o meu ventre e um arrepio percorrer a minha nuca.
Eu não tinha mais dúvidas.
Estava apaixonada por Damian Cavallari de um jeito que jamais imaginei amar alguém antes.
Eu queria o homem que ele era quando largava o controle e deixava o desejo conduzir. Quando a postura impecável caía e restava apenas Damian presente, vulnerável e meu.
A batida suave na porta me trouxe de volta ao quarto.
— Lena? — a voz de Sophia veio doce, cuidadosa, como se já soubesse que eu precisava daquele intervalo de realidade.
Saí do quarto sentindo o vestido ajustar-se ao meu corpo a cada movimento, enquanto a respiração ficava mais curta e o coração batia rápido. O corredor parecia mais longo do que antes. Desci as escadas devagar, o som dos meus saltos ecoavam pelo hall da mansão. Cada degrau parecia prolongar o instante, como se o tempo tivesse decidido me atormentar.
Na sala, Damian estava ao telefone, de costas. A postura impecável, o paletó perfeitamente ajustado, a presença firme de quem sabia exatamente onde estava e o que fazia. O homem que comandava reuniões, decisões e silêncios com a mesma facilidade. Mas quando ele ouviu meus passos, ele se virou devagar.
Os olhos azuis me encontraram e permaneceram ali. Seu olhar me percorreu com calma, como se estivesse gravando cada detalhe. Ele desligou o telefone sem dizer uma palavra, guardou-o no bolso interno do paletó e caminhou em minha direção.
A calma nos seus movimentos denunciava controle, mas o jeito que ele me olhava dizia algo mais.
Quando estava próximo o suficiente, ele ergueu minha mão com cuidado, fazendo seus lábios tocarem meus dedos em um beijo lento, respeitoso, íntimo.
Fechei os olhos sem perceber.
Quando ele se afastou, eu ainda sentia o calor daquele gesto.
— Está linda — sussurrou, tão perto que sua voz parecia vibrar dentro de mim.
Abri os olhos devagar, encarando-o com o coração completamente exposto, sem qualquer tentativa de defesa. Damian sorriu para mim, e naquele instante eu soube.
Aquela noite não seria sobre jantar.
Seria sobre tudo o que acontece quando duas pessoas param de fingir que ainda sabem recuar

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