Damian Cavalari
A cabine ainda cheirava a uísque e vidro quebrado. O chão refletia o brilho da lua através da janela, criando manchas prateadas sobre os estilhaços que eu não me dei ao trabalho de recolher.
Eu deveria estar dormindo, deveria estar descansando, mas o descanso não existe para homens como eu.
Peguei o celular sobre a bancada e passei o polegar pela tela, até encontrar o nome que eu precisava.
Alessandro Venturi.
Meu cunhado, meu advogado pessoal, o homem que cuidava de tudo aquilo que não poderia aparecer em relatórios ou contratos. O único que eu confiaria na minha vida.
A chamada não demorou três segundos para ser atendida.
— Damian? — a voz de Alessandro estava firme, desperta apesar da hora avançada. Ele sabia que eu não telefonava sem motivo.
— Quero uma atualização — respondi, direto, sem cumprimentos desnecessários. — Você já começou… aquilo que pedi?
Houve um breve silêncio. O tipo de silêncio que só profissionais que conhecem o peso de um nome Cavalari sabem manter.
Depois:
— Sim. Tudo está em andamento. Conforme você instruiu.
— E nada saiu do nosso círculo? — minha voz saiu baixa, cortante.
— Absolutamente nada. — O tom dele confirmou que meus segredos estavam seguros. — As medidas já foram acionadas e não haverá falhas.
Eu fechei os olhos por um instante. Pelo menos isso eu conseguia controlar.
Alessandro pigarreou do outro lado da linha, como quem tentava decidir se avançava ou não em um terreno perigoso.
— Damian… posso perguntar uma coisa?
— Fale.
— A reunião em Roma. Acontecerá daqui a dois dias. Estavam perguntando se você… comparecerá.
Eu soltei o ar devagar, sentindo a irritação pulsar nas têmporas. Meu corpo pedia distância, mas meu nome, meu legado e meus inimigos pediam presença.
— Estarei lá. — respondi, a contragosto.
— Ótimo. — Ele hesitou por um segundo. — Precisa de algo mais?
Preciso?
Eu poderia listar cem coisas. Começando pela sensação incômoda que Elena Rossi havia deixado em mim como uma maldição. Mas nada disso era assunto para Alessandro.
— Não — respondi. — Por enquanto, é só.
Desliguei a chamada antes que ele pudesse acrescentar qualquer pergunta inconveniente e o silêncio voltou, mas não havia a raiva explosiva de antes. Era um silêncio que pesava nos ossos, que lembrava promessas antigas, feridas antigas e limites que eu mesmo havia cravado na carne para nunca esquecer.
E foi nesse silêncio que a lembrança veio.
Sem aviso, sem permissão.
O dia em que descobri que Alessandro Venturi, meu melhor amigo, estava envolvido com minha irmã caçula, Beatrice.
E Beatrice correu até mim implorando que eu não o machucasse. Quando percebi as lágrimas em seus olhos e desviei o olhar para meu amigo, eu compreendi naquele instante que se existia alguém no mundo capaz de fazer a minha irmã feliz, era ele.
A raiva não desapareceu, muito menos a mágoa dos dois, mas o medo sim. Porque eu pude ver verdade nos olhos do meu amigo, ele a amava de todo coração e isso já era suficiente para mim.
O medo deixou de existir e se transformou em outra coisa.
Em vigilância, possessividade silenciosa. Em uma promessa muda de que, se Alessandro a machucasse… eu o destruiria, mesmo que fosse meu melhor amigo.
A lembrança se dissipou tão rápido quanto veio, deixando apenas o gosto amargo daquilo que não pude controlar.
De volta à cabine, encarei a janela novamente. A lua cheia brilhava sobre o mar como uma lâmina branca, fria e implacável. Do mesmo jeito que eu precisava ser.
Apoiei as mãos no parapeito e deixei o vento frio entrar, cortando minha pele, tentando me lembrar de quem eu era. E do que eu jamais poderia ser novamente.
— Não vou me render a ela — murmurei, baixo, como se a lua fosse testemunha da minha decisão. — Não importa o que aconteça. Não importa o que eu veja. Não importa o que sinta.
Eu era o rei, o caçador, o homem que já havia sangrado por amar e quase morreu por isso.
E Elena Rossi? Ela não seria exceção.
Fiz essa promessa uma vez e reafirmei agora. E faria quantas vezes fossem necessárias até acreditar.
Porque enquanto aquela mulher respirasse dentro das minhas paredes, eu precisaria repetir:
“Não vou cair.”
A lua, no entanto, parecia duvidar.

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