“Nem toda liberdade soa como escolha. Algumas soam como perda.”
Algumas noites não terminam em beijos.
Elas terminam em decisões que mudam tudo.
O carro parou diante de um prédio imponente em um dos bairros mais silenciosos e elegantes de Manhattan. A rua era limpa, organizada, quase solene. As luzes eram suaves e bem distribuídas, criando um ambiente silencioso e discreto, muito diferente do movimento intenso que eu associava à cidade. Demorei alguns segundos para entender onde estávamos. Não parecia um hotel, nem um endereço improvisado. Era claramente um prédio residencial. Um apartamento. E, enquanto tentava assimilar isso, a pergunta veio sem pedir licença: o que estávamos fazendo ali?
Desci do carro com o coração acelerado, sentindo a tensão se acumular no peito a cada passo. Havia algo no ar, uma expectativa que não se explicava, apenas se sentia. Damian fechou a porta atrás de mim e caminhou até o elevador ao meu lado, com passos firmes e seguros, como alguém que conhecia perfeitamente o local, cada detalhe, cada rotina.
O porteiro nos cumprimentou com excessiva discrição, daquele tipo que só existe em lugares onde a privacidade é regra e perguntas não fazem parte do serviço. Nenhum olhar curioso, nenhum comentário desnecessário. Apenas um aceno respeitoso, quase automático, como se nossa presença ali fosse esperada ou, no mínimo, não surpreendente.
Entramos no elevador.
As portas se fecharam com um som metálico que marcou o início de algo que eu ainda não entendia, mas já sentia. O espaço era amplo, silencioso, revestido de espelhos que refletiam meu rosto confuso sob diferentes ângulos. Cruzei os braços instintivamente, num gesto de autoproteção, como se meu corpo estivesse tentando se preparar para algo que ainda não tinha forma nem nome.
Damian permaneceu ao meu lado, atento, mas em silêncio. Ele não parecia nervoso, muito menos apressado. O elevador subia devagar demais para a velocidade dos meus pensamentos, e cada segundo parecia alongar a expectativa dentro de mim.
— Damian… — comecei, mas a palavra morreu antes de virar pergunta.
Ele virou o rosto para mim, me encarando com o olhar firme e tranquilo, aquele mesmo olhar que sempre me passava segurança e, ao mesmo tempo, me deixava alerta.
— Confia em mim — disse apenas.
As portas se abriram.
O apartamento se revelou diante de mim como uma cena que não pertencia à minha vida e, ainda assim, parecia ter sido criada sob medida para ela. A decoração era elegante, acolhedora, cheia de luz natural. Tons claros, madeira, janelas amplas que deixavam a cidade entrar sem barulho. Tudo ali falava de cuidado, de permanência, de algo pensado para durar.
Falava de futuro.
Entrei devagar, em silêncio, como se tivesse medo de que aquilo desaparecesse se eu me movesse rápido. Caminhei pela sala com atenção, tocando o encosto do sofá, sentindo a textura do tecido sob os dedos, observando os detalhes com um cuidado quase reverente: livros organizados, quadros discretos, uma mesa posta como quem espera alguém chegar todos os dias, não como visita, mas como parte da casa.
— Damian… o que é isso? — perguntei, com a voz carregada de animação e incredulidade.
Ele não respondeu de imediato.
Continuei andando, agora pelo corredor, abrindo as portas uma a uma, e a sensação foi imediata e profundamente desconcertante: tudo ali parecia ter sido pensado para mim. Não de forma genérica, mas específica demais para ser coincidência.
A cozinha era clara, funcional, prática, exatamente do jeito que eu gostava. O quarto principal era amplo e sereno, com janelas grandes que deixavam a luz entrar sem esforço e uma cama confortável. Nada era excessivo, nem aleatório. Cada detalhe me dizia, em silêncio, que alguém tinha prestado atenção em quem eu era.
E então abri a última porta.
O quarto infantil surgiu diante de mim e meus olhos se encheram de algo que eu não consegui conter. O espaço era alegre sem ser exagerado. Cores suaves, escolhidas com cuidado. Uma cama pequena. Uma estante baixa com livros organizados por tamanho. Um canto reservado para desenhos, lápis, papéis. Tudo ali tinha a cara da minha irmã. O jeito, a energia e a delicadeza curiosa da Sophia.

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