“Alguns homens aprendem cedo a sobreviver. Amar vem depois. E quase sempre dói.”
Beatrice então se aproximou de mim.
Segurou minhas mãos como quem sabe que vai tocar em algo frágil e me conduziu até o sofá.
— Senta — pediu, suave.
Obedeci. Meu corpo ainda estava quente, e o coração acelerado demais para fingir normalidade.
Ela se sentou ao meu lado, cruzando as pernas com calma. Mas seus dedos batiam levemente na própria coxa e seus olhos atentos diziam que ela não deixaria nada passar.
— Então… — começou, com um sorriso curioso. — Quero saber de tudo.
Ri nervosa, sentindo o rosto corar outra vez.
— De tudo o que?
— Ah Elena, pelo amor de Deus. Seu rosto está brilhando e meu irmão está parecendo um garoto que acabou de perder a virgindade.
Corei.
— Vai conta.
Suspirei fundo e com um sorriso que não saia do meu rosto, comecei:
— Ele foi… perfeito — confessei, com a voz mais baixa do que pretendia. — A noite foi maravilhosa, Bia. Tudo foi. Não só o que aconteceu, mas como aconteceu. Ele foi gentil, romântico e maravilhoso. Eu…
— Está apaixonada. — disse sem rodeios.
Fiquei em silêncio porque essa era a verdade.
— Isso me deixa feliz — ela continuou, e havia sinceridade ali. — Feliz de verdade.
Levantei o olhar, e não disse nada. Percebi apenas que o sorriso dela sumiu do rosto.
— Damian passou a vida inteira se fechando. Fazendo o que precisava ser feito e esquecendo de sentir. Ver ele se permitindo… — ela fez um gesto vago com a mão — me dá paz.
Algo na forma como ela disse aquilo despertou um desconforto que não combinava com o clima de minutos antes. Eu sempre soube que uma mulher tinha quebrado o coração dele, e saber que alguém tendo sido capaz de feri-lo, fez o meu sorriso vacilar e algo dentro de mim se partir.
— Bia… — chamei, hesitante. — O que aconteceu?
Beatrice manteve minhas mãos entre as dela por mais tempo do que antes. Seus dedos apertaram levemente, como se precisasse se conter.
— Lena… lembra do que eu te contei sobre o meu pai?
Assenti devagar.
— Lembro. — engoli antes de continuar. — De como ele amava a sua mãe… mas de um jeito que só a machucava.
Ela confirmou com um leve movimento de cabeça.
— Exatamente. — respirou fundo antes de continuar. — Damian cresceu vendo aquilo. Cresceu acreditando que amar profundamente significava ferir. — Beatrice suspirou fundo antes de continuar. — Por muito tempo, ele fugiu de qualquer sentimento que pudesse se tornar real. Não por falta de vontade… mas por medo.
— Certeza de quê? — perguntei, quase num sussurro.
— De que você seria capaz de atravessar todas as barreiras que ele construiu ao redor de si mesmo.
Meu coração bateu mais forte. Ela apertou minhas mãos com delicadeza.
— Porque você, Elena… — o sorriso dela se abriu com suavidade — conseguiu amá-lo quando Damian ainda vivia preso às próprias sombras. E apenas esse tipo de amor, é capaz de curar.
As palavras dela não me surpreenderam, elas me atravessaram e fizeram meu coração bater num ritmo diferente, firme, decidido.
Eu o amava.
Amava o homem que construiu muros não para afastar o mundo, mas para sobreviver a ele. Amava o cuidado silencioso, a escolha consciente, o controle que não esmagava, protegia. Amava o fato de que ele me deixou porque me escolheu.
Senti os olhos arderem de novo, mas dessa vez não havia revolta. Havia algo mais intenso, profundo e bonito.
Se apenas esse tipo de amor fosse capaz de curar, então eu já tinha atravessado o primeiro portão.
E naquele instante eu entendi que amar Damian nunca foi apenas sobre nós dois.
Foi sobre quebrar um ciclo e transformar medo em abrigo.
E mostrar a um homem que passou a vida inteira se protegendo que, às vezes, amar não dói.
Às vezes, amar salva.

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