“O problema nunca foi amar em silêncio. É o instante em que o amor passa a ser notado.”
O silêncio que ele deixou para trás era mais eloquente do que qualquer promessa.
Beatrice observava tudo com um sorriso quase orgulhoso, encostada de leve no batente da porta, como quem assiste a uma cena que já imaginava há mais tempo do que fingia admitir.
— Vocês são insuportáveis — comentou, cruzando os braços.
Mas havia mais afeto na voz do que qualquer crítica real.
Senti o calor subir pelo rosto outra vez. Corei sem conseguir evitar, odiando a maneira como meu corpo insistia em me trair nos momentos mais íntimos. O sorriso tímido escapou antes que eu pudesse conter, pequeno para esconder o que eu sentia.
Damian se inclinou, aproximando-se sem pressa, e encostou a testa na minha num gesto simples, quase carinhoso para alguém como ele. Não havia urgência, nem espetáculo, apenas verdade.
— Nos vemos mais tarde, princesa — disse, baixo.
A palavra ficou ali, suspensa entre nós, pesada de significados que nenhum dos dois ousou nomear.
Ele se afastou em seguida, atravessando o hall em direção à porta com aquele controle sereno que sempre o denunciava. Antes de sair, lançou um último olhar por cima do ombro, rápido e intenso suficiente para me prender naquele instante por segundos a mais do que eu deveria permitir.
A porta se fechou atrás dele com um som suave, quase respeitoso.E foi então percebi que tinha ficado imóvel.
Beatrice se aproximou devagar e veio até mim. Não havia pressa em seus movimentos, apenas a naturalidade de quem já tinha entendido tudo sem precisar de explicação. Abriu os braços e me puxou para um abraço quente, confortável, do tipo que acolhe antes mesmo de provocar.
— Bem-vinda à família, cunhadinha — murmurou perto do meu ouvido, com um sorriso divertido.
Ri baixo, ainda sentindo o coração acelerar, mas ela não se afastou de imediato. Inclinou-se um pouco mais, com os lábios quase tocando minha orelha, e sussurrou num tom perigosamente cúmplice:
— Segredo de irmã: quando o Damian fica silencioso depois de um beijo desses… é porque já se imaginou fazendo coisas que não pode dizer em voz alta.
Meu rosto pegou fogo no mesmo instante.
Afastei-me um pouco, arregalando os olhos, completamente sem defesa, enquanto Beatrice ria baixinho, satisfeita com o efeito devastador das próprias palavras.
— Beatrice… — tentei repreender.
A voz saiu fraca, incapaz de sustentar qualquer tentativa de repreensão.
— O quê? — ela fingiu inocência. — Preciso ficar de olho em vocês dois, afinal… temos uma criança em casa.
Beatrice fez uma pausa estratégica, inclinando levemente a cabeça.
— E do jeito que ele olhou para você… — o sorriso dela se tornou malicioso antes de concluir — não faltará entretenimento aqui.
Meu coração acelerou de imediato, descompassado, como se tivesse entendido antes de mim o alcance daquelas palavras. Um arrepio lento percorreu minha espinha quando a mente, traidora, começou a criar cenários impróprios demais para serem contidos. Damian e eu nos amando em cada cômodo daquela casa, contra paredes que eu mal conhecia, em espaços que, até então, pareciam seguros.
Respirei fundo, tentando expulsar as imagens, mas o corpo não colaborou. Ele reagiu antes que eu pudesse recuperar o controle.
Eu ainda tentava recompor a postura quando passos pequenos e apressados ecoaram pelo corredor.
— Corre então!
Sem pedir permissão, Sophia segurou minha mão e a de Beatrice ao mesmo tempo, puxando-nos pelo corredor em direção à cozinha, rindo, tropeçando, conspirando.
— Anda, Lena! Anda, tia Bia! Vocês têm que ver antes que ele volte e diga que não pode comer antes do almoço!
Beatrice entrou na corrida, exagerando os passos como se estivéssemos numa missão secreta.
— Rápido! — cochichou, dramática. — Operação resgate do bolo!
Aquela casa, antes silenciosa, organizada, rigorosa em sua perfeição, não conhecia bagunça nem riso solto. Era um espaço funcional, habitado por rotinas, não por alegria.
Tudo havia mudado com Sophia. E, sem que eu tivesse percebido o momento exato, tinha mudado comigo também.
Agora havia conspirações infantis pelos corredores, risadas fáceis que surgiam do nada, mãos pequenas puxando as nossas em missões secretas, e uma leve desordem que não pedia desculpas por existir. Aquela casa, finalmente, respirava.
Ela já tinha nos acolhido. E foi exatamente aí que o medo apareceu.
Porque tudo o que acolhe também pode ser perdido.
E, pela primeira vez, eu tinha alguém sem o qual eu não saberia como sobreviver.
Ainda assim, eu me deixei levar.

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