Elena Rossi
Acordei devagar.
Não como quem simplesmente abre os olhos, mas como quem emerge de um mergulho profundo, rompendo a superfície em busca de ar depois de ficar tempo demais envolta em silêncio, escuridão e pensamentos que insistem em perseguir até no sono. A respiração veio lenta, pesada, carregando ecos de sonhos que eu nem conseguia lembrar, mas que deixaram um gosto metálico na boca.
A cabine estava banhada por uma luz dourada, tímida ainda, entrando pela pequena janela circular como um raio de misericórdia num lugar que, até poucas horas atrás, parecia uma prisão flutuante. O brilho tocava o chão marcado por sombras, deslizava pelos móveis de madeira escura, subia pelas paredes e finalmente pousava sobre mim, como se tentasse me lembrar de que o mundo ainda podia ser leve, bonito… mesmo quando tudo dentro de mim parecia prestes a ruir.
Por um segundo… apenas um… eu esqueci onde estava.
Esqueci que aquela cabine minimalista, perfumada de madeira polida e maresia, não era um quarto, muito menos um lar. Esqueci quem era o dono daquele iate e o que estava fazendo ali.
E então o vazio ao meu lado me lembrou.
O lençol estava intocado no lado direito, confirmando aquilo que eu já sabia. Ele não veio. Eu era apenas um brinquedo nas mãos de Damian Cavalari. E naquela noite, eu percebi de maneira cruel que minha vida, não era mais totalmente minha.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes tentando afastar aquele aperto no peito que parecia querer me rasgar de dentro para fora. Mas não adiantava.
A ausência dele era um lembrete de que Damian Cavalari não precisava levantar a voz para me quebrar, ele apenas precisava não aparecer. A verdade estava ali, silenciosa, implacável me encarando como um reflexo que eu não conseguiria desviar.
E foi nesse momento, nesse ponto exato entre o desalento e a necessidade de continuar respirando, que eu senti a urgência: Eu precisava ouvir a voz da minha madrinha. Precisava de qualquer notícia que me lembrasse por que eu havia aceitado estar ali. Por que eu havia firmado um pacto com um homem que conhecia a anatomia da destruição melhor do que qualquer médico conhece o corpo humano.
Minhas mãos ainda estavam trêmulas quando peguei o telefone no criado-mudo. O objeto parecia pesado demais, como se carregasse dentro dele todas as possibilidades de esperança ou de tragédia.
Disquei e a chamada caiu no terceiro toque.
— Elena? — A voz dela surgiu preocupada, mas cálida, amorosa. Como um cobertor quente num inverno rigoroso.
Meu peito relaxou um pouco ao ouvir a voz doce e serena da minha madrinha.
— Sou eu… — consegui murmurar, tentando manter a voz estável, mas sentindo a emoção ameaçando subir pela garganta. — Como está a Sofia?
O silêncio que se instalou do outro lado não foi longo, mas foi o suficiente para fazer meu coração parar num intervalo entre batidas. Quando minha madrinha suspirou, senti algo dentro de mim se encolher.
— Ela passou a noite muito melhor, minha menina.
Meu corpo inteiro reagiu como se tivesse sido puxado de volta à vida.
— Melhor? — repeti, quase sem ar. — Como assim?
— Um médico chegou tarde da noite, enviado para avaliá-la. — A voz dela tinha um tom esperançoso que eu não ouvia há semanas. — Ele fez alguns procedimentos e disse que hoje ela será vista por um especialista. Achamos que… que talvez seja uma chance. Ele falou que depois dessa visita iria tentar extubá-la, não é maravilhoso minha menina?
Fechei os olhos.
E foi como se uma onda quente atravessasse meu corpo inteiro. Era um misto de alívio, fé, um milagre embrionário se formando dentro do caos.
— Graças a Deus… — murmurei, sorrindo sem perceber. — Graças a Deus…
Sofia. Minha irmãzinha. A pequena que era meu coração fora do peito. A razão pela qual eu estava ali, no iate de um homem que podia me destruir com um gesto.
Eu ia agradecer, pedir detalhes, implorar para ouvir a respiração dela, qualquer coisa, mas então uma batida seca, firme, autoritária ecoou na porta da cabine. Não era uma batida comum, era como um aviso, um chamado e eu sabia exatamente de quem vinha.
Meu corpo congelou. Meus músculos tesnionaram ficando em alerta. O ar deixou de ser apenas ar, virou expectativa e medo. Eu respirei fundo, tentando disfarçar qualquer tremor.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário