“O perigo raramente chega fazendo barulho. Ele prefere observar até que a felicidade se distraia.”
Elena Rossi
Sophia nos esperava sentada no banco do parque, com as pernas balançando no ar.
— Demoraram — acusou, séria.
— Assuntos de adulto — Beatrice respondeu com naturalidade.
Ela fez uma careta desconfiada, mas aceitou a resposta.
Seguimos para a praça de alimentação quase em silêncio. Escolhemos uma mesa mais afastada, pedimos um lanche simples e nos sentamos. Sophia começou a falar sem parar sobre o brinquedo favorito, descrevendo cada detalhe com a empolgação de quem voltou a acreditar no amanhã. Beatrice ria, distraída, roubando batatas fritas do prato dela sem o menor constrangimento.
Eu observava a cena com o coração apertado e aquecido ao mesmo tempo.
A imagem de Sophia agora não descrevia nada daquela de alguns meses atrás no leito de hospital.
Eu me lembrei da primeira vez que Damian me olhou de verdade. Não havia ternura no seu olhar, apenas frieza, controle, posse. As palavras que ele me disse, foram duras. Ele fazia questão de deixar claro que eu tinha sido comprada. Que aquele acordo tinha regras e que nada daquilo era sobre sentimentos.
E eu acreditei nele.
Por muito tempo, acreditei.
Mas algo começou a mudar nos silêncios. No beijo que aconteceu quando não deveria. No toque que nunca vinha, mesmo quando o desejo era evidente. Na falta que ele fazia quando se afastava, como se ocupasse mais espaço fora do que dentro do quarto.
Eu jamais imaginei que fosse me apaixonar por ele.
Damian nunca prometeu nada. Mas sempre esteve cuidando de mim e de Sophia em silêncio, como alguém que protege sem pedir reconhecimento.
E ontem a noite, quando ele quis me libertar, eu compreendi o porquê dele nunca ter ido até o fim.
Damian esperou até o fim do contrato, até que não houvesse mais obrigações nem limites impostos por papel algum. Não porque precisava, mas porque queria que fosse diferente.
Porque o que existia entre nós não era posse. Era uma escolha.
Ele me desejava não porque me comprou, mas porque me via como mulher. Porque me quis inteira, livre, consciente.
E essa diferença mudou tudo. Deu sentido à espera que doeu, ao medo que me acompanhou, à entrega que só aconteceu quando deixou de ser obrigação.
Fez tudo valer a pena.
Olhei novamente para Sophia, agora saudável, rindo alto, gesticulando com as mãos sujas de ketchup.
Viva. Inteira. Ali.
Meu peito se apertou com a força dessa constatação.
Eu estava hoje sentada em uma praça de alimentação, cercada por risadas e barulho, porque ele tinha mudado tudo. Porque o medo não tinha vencido. Porque, depois de tanta escuridão, a vida tinha encontrado um jeito de ficar.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti acreditar que talvez a felicidade não fosse algo proibido para mim.
Foi quando senti.
Um frio lento percorreu minha espinha, como um aviso que não vinha do corpo, mas de algo mais profundo. Senti o meu sorriso vacilar por um segundo imperceptível.

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