“Há noites em que o passado deixa de mandar. E o homem finalmente escolhe quem deseja tocar.”
Damian Cavalari
Eu conhecia o caminho de volta para casa melhor do que qualquer homem conhece a própria história.
O carro passou pelo caminho de pedra, o portão se fechou atrás de mim com o som conhecido de sempre, e por um instante tudo pareceu exatamente como deveria ser. A mesma rotina, o mesmo percurso, o mesmo silêncio.
O problema era que, naquela noite, quem atravessava aqueles portões já não era o mesmo.
A mansão estava envolta naquela calma noturna que costumava me pertencer. Luzes baixas estrategicamente distribuídas, sombras longas projetadas pelos móveis, o cheiro limpo e discreto que Maria fazia questão de manter. Cada detalhe ali tinha sido pensado para funcionar, para acolher sem invadir, para permitir que eu existisse sem ser exigido.
Ainda assim, algo em mim já não se encaixava naquele silêncio do mesmo jeito.
Fechei a porta com cuidado, como se o som pudesse denunciar alguma coisa que eu ainda não tinha nomeado. Tirei o relógio do pulso, deixei sobre o aparador, respirei fundo. O terno ainda estava alinhado, o corpo cansado do dia longo, mas a mente seguia alerta para alguém que tinha resolvido tudo o que precisava resolver.
Antes mesmo que eu perguntasse, Maria surgiu no hall, como sempre fazia. A presença dela era tão parte da casa quanto as paredes.
— A menina Sophia passou a tarde inteira passeando com a senhorita Elena e Beatrice — disse, num tom naturalmente informativo, quase protocolar, como se estivesse me entregando um relatório cotidiano. — Mas agora já está dormindo.
Sorri antes mesmo de perceber que estava sorrindo.
Um sorriso que por muitos anos repreendi. Um sorriso que externava exatamente como eu me sentia.
— E a senhorita Rossi? — perguntei, embora a resposta já estivesse formada em algum lugar dentro de mim, muito antes de atravessar aquele portão.
Maria inclinou levemente a cabeça, o gesto calmo de quem conhece a casa e as pessoas que a habitam melhor do que imagina.
— Deve estar no quarto, senhor.
Assenti devagar.
Havia algo de reconfortante naquela resposta. Não porque ela estivesse ali, mas porque eu sabia exatamente onde procurá-la. Pela primeira vez em muito tempo, não havia incerteza naquele caminho.
Quando me virei em direção à escada, ouvi a voz de Maria novamente, cuidadosa como sempre, mas curiosa o suficiente para não passar despercebida.
— Quer que eu mande preparar o jantar?
Parei no primeiro degrau. Virei-me devagar, encarando-a com a atenção que ela merecia.
Pensei em Elena. Na dor que ela carregou. No medo que a acompanhou durante meses, dia após dia, sem trégua. Mas, acima de tudo, o que mais me atingia era a força de Sophia. A maneira como ela resistiu. Como continuou ali, lutando, mesmo quando não havia garantias. E saber que hoje ela estava bem… porque eu tinha sido capaz de tornar isso possível… trazia uma paz rara.
Uma paz que eu não estava acostumado a sentir.
Continuei caminhando em direção ao quarto onde Elena estava.
Empurrei a porta com cuidado, fechando-a atrás de mim sem ruído. Elena não estava no quarto, olhei em direção ao banheiro e vi que a porta estava entreaberta. Deixei o paletó sobre a poltrona, afrouxei a gravata, abri os primeiros botões da camisa e caminhei em direção ao banheiro.
A porta estava entreaberta e Elena, envolvida no robe de seda, inclinava-se sobre a banheira enquanto a água subia em ondas lentas, preenchendo o ambiente com vapor e expectativa.
Eu deveria anunciar minha presença. Mas fiquei onde estava.
Observando.
O contorno das pernas sob a seda. A curva suave das costas. A maneira como o cabelo caía sobre o ombro, oferecendo mais do que prometia.
E naquele instante, com o coração batendo num ritmo que já não obedecia à disciplina que eu impus a vida inteira, eu entendi uma verdade simples, brutal e impossível de negociar:
Naquela noite, eu só queria uma coisa: Ela.

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