Elena Rossi
O convés estava quieto quando Lara me guiou até a porta da cabine de desjejum.
Meu coração estava uma bagunça caótica dentro do peito, mas minhas mãos estavam firmes, ou pelo menos era isso que eu tentava acreditar.
Eu havia escolhido um vestido simples, o mais simples do guarda-roupa imposto pelo iate. Era de um tecido leve, um azul pálido, quase tímido. A saia caía próxima aos joelhos, delicada, com uma fluidez que contrastava com o aço que eu queria aparentar. As mangas curtas revelavam meus ombros, e o decote discreto mostrava só o suficiente para não me deixar desconfortável.
Eu queria parecer forte, segura, inatingível. Mas o vestido delicado denunciava tudo o que eu tentava esconder.
Lara abriu a porta antes que eu pudesse respirar fundo pela terceira vez. E quando eu entrei… ele já estava lá.
Damian Cavalari.
Sentado à cabeceira da mesa posta impecavelmente. Usava uma camisa preta, mangas dobradas e colarinho aberto. O sol da manhã entrava pela janela lateral, cortando o rosto dele como se o próprio dia tivesse receio de tocá-lo por completo.
Ele ergueu os olhos devagar quando ouviu meus passos e me olhou como um predador que estuda a presa. Não com fome, mas como quem avalia ela atentamente.
— Senhorita Rossi — disse, com aquela voz baixa que parecia arfar contra o meu pescoço. — Que bela surpresa, pensei que teria que comer sozinho.
O golpe veio com elegância, mas doeu como um tapa.
Hesitei por um instante e me odiei porque ele havia percebido.
— Estou aqui para o desjejum, como pediu — respondi, mantendo a coluna ereta. — desculpe se o fiz esperar.
Ele me observou por um momento longo demais. Longo o suficiente para descobrir que o tecido fino do meu vestido tremia levemente com minha respiração.
— Sente-se — ordenou.
Caminhei até a cadeira oposta, mas cada passo era como um teste. Um exame. Uma leitura silenciosa da minha alma.
Sentei colocando as mãos sobre o colo, entrelaçando os dedos para impedir que ele percebesse que eu tremia.
Ele inclinou a cabeça me avaliando e um sorriso surgiu discretamente no canto de sua boca. Eu sabia que ele não zombava de mim, ele me lia, e sabia que estava nervosa.
A mesa tinha frutas cortadas, ovos, pães, café… mas nada me descia. Minha garganta parecia fechada.
Damian apoiou o cotovelo no braço da cadeira, levando o queixo aos nós dos dedos, e simplesmente olhou. Como se cada centímetro de mim precisasse ser decifrado.
— Coma, Elena — ele disse, suave demais para não ser ameaça.
Peguei o garfo e minha mão falhou por meio segundo, mas rapidamente corrigi. Mesmo assim, ele havia percebido e me amaldiçoei por isso. Coloquei um pedaço pequeno de fruta na boca, tentando não parecer uma criança amedrontada, mas eu sentia o olhar dele queimando a minha pele, e odiava a forma que meu corpo reagia aquele olhar.
— Você tenta ser forte — disse, sem rodeios. — Mas está longe disso esta manhã.
Levantei os olhos, ferida e orgulhosa ao mesmo tempo.
— Eu não sou fraca.
— Não? — Ele arqueou a sobrancelha, com ironia sutil. — Sua voz tremeu três vezes desde que entrou. Sua mão, quatro. E o vestido que escolheu… — os olhos dele deslizaram lentamente de cima a baixo, me tirando o ar — delicado demais para alguém tentando parecer inabalável.
Corei e fiquei ainda mais irritada por não conseguir controlar as reações do meu corpo diante dele.
Damian sorriu, mas foi um sorriso cruel. Um sorriso que dizia: Eu vejo tudo.
— Estou apenas cansada. — tentei argumentar.
— Não… — Ele me cortou com precisão cirúrgica. — Está afetada.
Meu estômago doeu.
— Pelo quê? — arrisquei.
Ele se inclinou ligeiramente para frente e seus olhos azuis se prenderam aos meus com intensidade.
— Pela noite de ontem… — respondeu, sem hesitação alguma. — Pelo que esperou e pelo que não recebeu.
Meu coração parou por um segundo. E todo o meu corpo arrepiou ao ouvir a voz rouca e grossa dele.
Damian sorriu e dessa vez, seu sorriso era convicto, predatório e me fez temer.
— Ah, meu bem… — ele murmurou. — Você já está no tabuleiro desde o momento em que subiu naquele palco e eu a comprei.
A palavra comprar cortou o ar como uma lâmina fina e gelada.
Eu sabia o papel que ocupava ali, que nada mais era do que uma peça negociável, uma moeda de troca, um corpo com nome mas sem direito a identidade.
E mesmo assim mesmo assim doeu.
O orgulho latejou. A humilhação queimou, ácida, descendo pela garganta como se tivesse sido engolida viva. Meu peito subiu e desceu devagar, num esforço patético para manter a dignidade junta.
— Então por que não usou a mercadoria ontem, senhor Cavalari? — perguntei, tentando disfarçar a minha voz trêmula.
Damian sorriu e com calma, ele se recostou na cadeira, como se meu colapso emocional fosse apenas mais um detalhe estético da manhã dele.
— Tudo ao seu tempo, senhorita Rossi.
A resposta dele caiu sobre mim pesada, e cheia de promessas que eu não estava pronta para decifrar. Eu tentei rebater. Tentei encontrar qualquer frase que devolvesse a ele um mínimo do poder que tirava de mim a cada olhar.
Mas não consegui. Porque por um momento pensei na Sofia e no que minha madrinha tinha dito pela manhã.
Ela passou a noite muito melhor.
Um silêncio profundo e perigoso se formou entre nós dois.
Ele tomou um gole do café e eu não conseguia mover a mão.
E então ele finalizou o primeiro diálogo verdadeiro entre nós desde a noite anterior:
— Coma, Elena. Não quero que caia antes da próxima jogada.
E quando a verdade é dita pela boca do demônio ela se torna ainda mais real.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário