“Ele não me ofereceu um conto de fadas, ele me ofereceu permanência.”
Elena Rossi
Há noites que parecem um encontro. E existem noites que mudam o destino.
Damian ofereceu o braço e eu aceitei.
Saímos de casa e o carro já esperava do lado de fora. Ele abriu a porta para mim como se fosse a coisa mais natural do mundo. Entrando em seguida e segurando a minha mão.
Dirigimos em silêncio.
A cidade se transformava em luzes, reflexos, movimento. Meu polegar desenhava linhas invisíveis na mão dele sem que eu percebesse.
— Você está nervosa — ele observou.
— Estou curiosa.
— É pior.
Sorri.
— Confia em mim?
Olhei para ele.
Para o homem que me segurava como se eu fosse algo precioso. Para o homem que desmontava o mundo inteiro e ainda assim encontrava tempo para me olhar como se eu fosse prioridade.
A resposta já existia dentro de mim.
— Sempre.
O carro nos levou pela cidade iluminada, e quando paramos diante do prédio, demorei um segundo para entender.
Era um teatro.
Mas não um teatro comum. A fachada era clássica, restaurada com um cuidado quase reverente. Nenhuma fila, nenhum burburinho. Apenas um funcionário nos esperando na entrada como se a noite inteira existisse só para nós.
— Damian… — murmurei. — O que é isso?
— Uma peça — respondeu simplesmente. — Exclusiva.
Ele disse a palavra com naturalidade, como se alugar um teatro inteiro fosse tão comum quanto pedir café.
Entramos.
O interior era deslumbrante. Lustres antigos, poltronas de veludo, o palco iluminado por uma luz suave que parecia prometer um segredo. Meu coração acelerou só de estar ali. Eu me sentia pequena dentro de tanta beleza.
Sentamos na primeira fileira, minutos depois a música começou e a história se abriu diante de mim.
Nos primeiros minutos eu só observei. A mulher no palco, o homem elegante, o encontro inesperado, o diálogo afiado.
Meu estômago revirou porque eu conhecia aquilo perfeitamente.
Cada palavra.
Cada gesto.
Cada silêncio.
Meu coração disparou acelerado e senti o corpo todo estremecer.
Era o leilão, o contrato, a nossa história.
Minha mão voou para a boca antes que eu percebesse. As lágrimas vieram rápidas, quentes, impossíveis de conter. Eu assistia a minha própria vida sendo encenada com uma delicadeza que me desmontava. Não era caricatura, era verdade.
A nossa verdade.
Olhei para Damian. E ele não estava olhando para o palco, olhava para mim. E o mundo inteiro parecia reduzido àquele olhar.
— Você… — sussurrei, sem conseguir terminar a frase.
Ele apenas sorriu. Um sorriso pequeno, vulnerável. O tipo de sorriso que ele raramente permitia que alguém visse. Desviei os olhos novamente para o palco.
A peça avançava.
A mulher no palco lutava contra os próprios sentimentos. O homem fingia controle enquanto se rendia aos poucos. Cada cena arrancava algo do meu peito. Eu chorava em silêncio, e Damian mantinha a mão firme sobre a minha, o polegar desenhando círculos lentos como se dissesse: eu estou aqui.
Quando a história se aproximou do fim, o palco ficou em silêncio.
O ator caminhou até a atriz e se ajoelhou. Esse pequeno gesto fez o meu coração disparar.
— Fica comigo — disse ele. — Não por contrato. Não por obrigação. Mas porque você deseja.
O ar sumiu dos meus pulmões e eu virei o rosto, ainda atordoada, e vi Damian se mover lentamente. Ele segurou minha mão direita, enquanto tirava do bolso do paletó uma caixa vermelha. Em seguida a abriu e o anel brilhou sobre a luz do teatro.
A voz dele perdeu a dureza e ganhou verdade.
— E sem me pedir permissão, Elena, você começou a derrubar muros que eu levei anos para construir.
Os olhos dele não saíam dos meus.
— Você me fez rir quando eu queria continuar frio. Me fez querer me aproximar quando tudo o que eu sabia fazer era manter distância.
Ele respirou fundo.
— Pela primeira vez em muito tempo… eu não quis ir embora.
A mão dele levou a minha até o seu peito. Senti o coração bater acelerado dentro do peito.
— Você me ensinou que o amor não vem para destruir. Ele vem para reconstruir o que a dor tentou roubar.
Eu já chorava sem qualquer controle.
— Então entende o tamanho do que eu estou fazendo aqui — ele pediu, com a voz baixa, intensa. — entende o que significa para um homem como eu admitir que quer alguém?
O polegar dele acariciou o anel agora no meu dedo.
— Eu quero você.
Não havia espaço para dúvida.
— Quero o teu riso na minha casa. Quero dormir e acordar com você em meus braços. Quero os seus dias misturados com os meus.
Ele respirou fundo, como quem dava um salto sem garantia de chão.
— Mas, principalmente… eu quero escolher você todos os dias.
O mundo inteiro cabia naquela frase.
— Elena Rossi… — a voz dele falhou, mas permaneceu. — Namora comigo?
Não foi apenas um pedido, foi uma entrega.
A safira brilhava no meu dedo.
Mas nada iluminava mais do que o homem que finalmente tinha decidido amar.

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