“Permanecer também é uma forma de amor.”
Elena Rossi
Existem dias em que a gente para de sobreviver.
E começa, finalmente, a viver.
O sol da tarde ainda era generoso quando nós desistimos de fingir que conseguiríamos continuar dentro de casa.
O calor pedia água, sombra e algum tipo de honestidade que talvez só existisse quando ninguém estava tentando impressionar ninguém.
A piscina refletia o céu como um espelho vivo. A superfície azul tremia devagar, convidativa, e Beatrice foi a primeira a entrar, prendendo o cabelo no alto da cabeça antes de mergulhar os pés e suspirar como se tivesse encontrado a solução de todos os problemas do mundo.
Eu entrei logo depois.
A água subiu pelo meu corpo em um abraço fresco, tirando de mim um cansaço que eu nem tinha percebido que carregava. Por um momento, fechei os olhos e deixei que o silêncio existisse.
No jardim, Sophia corria atrás de Spok.
O filhote ainda tropeçava nas próprias patas, valente demais para o tamanho que tinha, enquanto ela ria, chamando por ele como se o nome fosse um feitiço capaz de mantê-lo sempre por perto.
De vez em quando, ela olhava para nós como quem precisa confirmar que a felicidade continuava ali.
Beatrice apoiou os braços na borda da piscina e me observou com atenção suspeita demais para ser casual.
— Então — ela disse, desenhando a palavra com prazer. — você vai me contar ou prefere que eu adivinhe?
Eu sabia exatamente do que ela estava falando, mas tentei fingir que não.
— Contar o quê?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Elena Rossi, eu ouse abusar da minha inteligência. O meu irmão organiza um pedido de namoro cinematográfico e você quer me poupar dos detalhes? E outra coisa, você está com uma cara de que fez algo inusitado durante a madrugada e não venha com coisas óbvias e comuns.
Eu ri, sentindo o rosto aquecer apesar da água fria.
— Não aconteceu nada.
Beatrice gargalhou.
— Ótimo. Então esse brilho nos seus olhos é febre. Vamos chamar um médico.
Balancei a cabeça, mas o sorriso me traiu.
Era impossível não lembrar de tudo o que tinha acontecido desde ontem a noite. O teatro, a peça, o pedido de namoro, a maneira que nos amamos, como nos entregamos sem ressalvas e medos…
Beatrice se aproximou um pouco mais.
— Ele pediu direito? — perguntou, agora com curiosidade genuína.
Respirei fundo respondendo com um sorriso largo.
— Pediu.
— E?
Eu mordi o lábio, sentindo a memória me percorrer como um arrepio.
— Eu disse sim.
Ela bateu as mãos na água, comemorando.
— Finalmente! Ai meu Deus agora é oficial, você é minha cunhada!
— Ele te ama de verdade, Elena. Te ama como nunca amou ninguém antes.
Senti o coração estremecer com aquela constatação.
— Eu também o amo — respondi, mais para mim do que para ela.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, observando Sophia e o cachorro inventando um mundo particular no jardim.
Beatrice então inclinou a cabeça.
— Você está feliz?
A pergunta era simples. Mas a resposta carregava tudo. Olhei para a casa. Para o lugar que tinha deixado de ser passagem e virado permanência.
— Estou — falei.
E pela primeira vez não tive medo depois da palavra.
Beatrice sorriu, satisfeita, como quem presenciou uma vitória pessoal.
— Então aproveita — disse. — Porque homens como meu irmão, quando escolhem, escolhem para sempre.
Eu observei Sophia correr na direção da gente, Spok atrás, desajeitado, determinado a nunca ficar distante demais.
E pensei que talvez Beatrice estivesse certa. Talvez eu tivesse, finalmente, parado de esperar a queda.
Talvez agora eu pudesse apenas viver.
Mas, enquanto saía da piscina para receber o abraço apertado da minha irmã e o latido eufórico do cachorro, uma certeza doce se acomodou dentro de mim.
Se amar era ficar… então eu já estava em casa.

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