"Há homens que enfrentam o mundo por ambição. Outros o enfrentam porque finalmente têm para onde voltar."
Damian Cavallari
Existe algo perigosamente desestabilizador em observar a mulher que você ama enquanto ela dorme, porque naquele silêncio desarmado, longe das negociações, dos contratos e das guerras que exigem cálculo e frieza, você se dá conta de que todo o poder que construiu não significa absolutamente nada se não houver alguém que o espere ao amanhecer.
O mundo inteiro podia estar aguardando por mim naquele exato instante, reuniões estratégicas, decisões capazes de alterar mercados, contratos milionários e homens acostumados a não hesitar diante de risco algum. Mas nada, absolutamente nada, tinha o mesmo peso que o silêncio daquele quarto aquecido pela luz suave da manhã, onde Elena dormia como se a vida fosse simples e segura.
Ajustei o relógio no pulso com precisão quase automática, um gesto aprendido ao longo de anos em que cada minuto significava vantagem ou prejuízo, mas meus olhos voltaram para ela como se o tempo, ali, não tivesse qualquer autoridade.
Elena estava deitada de lado, parcialmente coberta pelo lençol, os cabelos espalhados sobre o travesseiro como se tivessem decidido permanecer ali para sempre, e a respiração lenta, profunda, criava um ritmo tranquilo que contrastava violentamente com o homem que eu costumava ser.
A boca levemente entreaberta guardava o vestígio de um sorriso que talvez ainda pertencesse aos sonhos, e o travesseiro, o meu travesseiro, estava preso entre os braços dela como se o meu cheiro fosse suficiente para mantê-la próxima mesmo quando eu precisasse sair.
Afrouxei o nó da gravata por um instante, não por desconforto, mas porque a memória ainda queimava sob a pele.
Era quase irônico que poucas horas antes eu estivesse encurralado contra a pia do banheiro por aquela mesma mulher que agora dormia com aparência serena, ouvindo-a sussurrar que cuidaria de mim enquanto o rubor subia lentamente pelo pescoço dela e a coragem se misturava àquela inocência que nunca deixava de me surpreender.
Fechei os olhos por um segundo mais longo do que deveria e respirei fundo.
Se eu me permitisse revisitar com detalhes o modo como ela me olhou sob o chuveiro, a água escorrendo pela pele dela e a confiança absoluta com que segurou meu rosto, eu simplesmente não sairia daquele quarto hoje e o mundo teria que aprender a esperar.
Passei o paletó pelos ombros com a precisão de quem veste não apenas uma peça de roupa, mas uma identidade inteira. O tecido caiu perfeitamente no lugar, moldando postura, presença e controle, e a imagem que o mundo conhecia estava pronta.
Postura reta, expressão calculada, olhar firme.
Mas antes de enfrentar qualquer sala de reunião, eu precisava de algo que nenhuma conquista poderia oferecer.
Caminhei até a cama com passos silenciosos e deliberados, e o colchão afundou levemente quando me sentei ao lado dela, fazendo com que ela se movesse quase imperceptivelmente, ainda presa ao sono.
Inclinei o corpo devagar, apoiando uma mão ao lado do rosto dela, sentindo o perfume suave misturado ao meu, uma combinação que agora já me parecia inevitável.
Beijei seus lábios com delicadeza, demorando mais do que deveria naquele toque lento que carregava não apenas desejo, mas promessa.
— Até mais tarde, meu amor — murmurei contra a boca dela, deixando que minha voz a encontrasse antes da consciência.
Elena sorriu antes mesmo de abrir os olhos, como se estivesse me esperando ali, como se soubesse que eu jamais sairia sem marcar presença. Ela ergueu a mão, segurou meu rosto com aquela confiança que me desmonta silenciosamente e me puxou para mais perto, aprofundando o beijo com uma doçura que nunca perde intensidade.
— Não chega tarde… — sussurrou, ainda entre o sono e a lucidez.
Sorri contra os lábios dela, sentindo o pedido como algo maior do que um simples horário.
— Pode deixar.
Ela me soltou devagar, voltou a abraçar o meu travesseiro e se acomodou de lado novamente, como se confiasse de forma absoluta que eu voltaria.
E foi então que vi.
A luz da manhã atravessava a cortina com delicadeza e atingia o dedo direito dela, fazendo a pedra do anel refletir um brilho firme e decidido.
Não era apenas uma jóia.
Era uma escolha. Era o tipo de símbolo que homens como eu não oferecem por impulso. Um canto do meu sorriso se aprofundou, não por vaidade, mas por reconhecimento.
Saí do quarto em silêncio, fechando a porta com cuidado, e o corredor da casa me recebeu com uma calma que ainda me surpreendia, porque minha antiga vida ecoava vazia, enquanto aquela respirava.
Caminhei até o quarto de Sophia e abri a porta devagar.
Lá estava ela, espalhada na cama com a naturalidade despreocupada de quem nunca precisou calcular o mundo, abraçada a dois ursos de pelúcia que pareciam guarda-costas oficiais, o cabelo bagunçado e a expressão serena.
Spock foi o primeiro a acordar.
O pequeno traidor ergueu a cabeça, me reconheceu instantaneamente e começou a pular com entusiasmo absoluto, a cauda batendo contra o colchão como se estivesse celebrando um evento de proporções épicas. Abaixei-me para acariciá-lo.
— Bom dia, Spock.
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