“Homens constroem impérios com cálculo. Mas quando se ajoelham, fazem isso com o coração exposto.”
Damian Cavallari
Existem situações capazes de abalar até mesmo os homens mais poderosos do mercado financeiro, e nenhuma delas envolve crises econômicas imprevisíveis, fusões bilionárias que reestruturam mercados inteiros ou ameaças corporativas capazes de derrubar ações em questão de minutos.
Envolve, ironicamente, uma pequena caixa de veludo repousando na palma da mão e a possibilidade concreta, crua e devastadoramente simples de ouvir a palavra “não” sair da boca da única pessoa cuja resposta realmente importa.
Quando entrei na minha sala naquela manhã, perfeitamente ajustado dentro do meu terno escuro de corte impecável, com a gravata alinhada milimetricamente e a postura que fazia conselhos administrativos se manterem em silêncio absoluto antes mesmo de eu me sentar à cabeceira da mesa, eu esperava encontrar relatórios urgentes, contratos aguardando assinatura ou talvez algum problema internacional esperando solução estratégica sob minha análise fria e precisa.
O que eu não esperava, em hipótese alguma, era encontrar Alessandro Venturi andando de um lado para o outro como se estivesse prestes a ser convocado para um interrogatório público transmitido em rede nacional, como se cada passo que ele dava estivesse medindo o próprio nível de coragem.
Ele não estava sentado na poltrona de couro diante da minha mesa. Não estava lendo nenhum documento. Não estava analisando algum contrato milionário com a atenção minuciosa que sempre demonstrou em negociações complexas.
Estava andando.
E andando de forma irregular, com os passos marcando o piso de madeira com um ritmo inquieto, os ombros levemente tensionados, a respiração mais curta do que o habitual.
O que, no caso de Alessandro, homem acostumado a enfrentar tribunais e investidores com firmeza quase irritante, já era um sinal claro de colapso interno.
— Você está cinco minutos adiantado para um surto nervoso ou cinco minutos atrasado para uma decisão importante? — perguntei, retirando o paletó com calma cirúrgica enquanto observava o espetáculo com interesse controlado.
Ele ignorou a provocação inicial, como quem decide que não tem tempo para ironias, e veio direto até minha mesa, abrindo uma pequena caixa de veludo com a solenidade de quem apresenta provas definitivas diante de um júri capaz de decidir seu destino.
O anel brilhava sob a luz do escritório, refletindo pequenos feixes dourados que se espalharam sobre a superfície polida da madeira.
Elegante. Impecável. E absolutamente ameaçador.
Não pelo valor da pedra. Mas pelo peso simbólico do gesto que representava.
— Eu ensaiei o discurso — ele declarou, passando a mão pelos cabelos como se tivesse acabado de sair de uma reunião de guerra diplomática. — Ensaios estruturados. Versões alternativas. Inclusive com pausas dramáticas calculadas.
Recostei-me lentamente na cadeira de couro, cruzando os braços com a serenidade de quem está prestes a saborear algo delicioso, não por crueldade, mas por reconhecer a ironia da situação.
— Pausas dramáticas ensaiadas deixam de ser dramáticas e passam a ser constrangedoras.
Ele me lançou um olhar que, em qualquer outro ambiente, poderia ter iniciado um conflito diplomático de proporções consideráveis.
— Damian, eu estou falando sério.
— Eu também estou. Você está transformando um pedido de casamento à minha irmã em uma apresentação de PowerPoint emocional.
Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo de maneira mais perceptível do que gostaria.
Beatrice Cavallari, a mulher que cresceu sob o mesmo teto que eu, que aprendeu a enfrentar o mundo com firmeza e elegância, que sempre foi mais forte do que aparentava e que, ironicamente, agora tinha um advogado internacional tremendo diante da possibilidade de pedi-la oficialmente em casamento.
— E se ela disser não? — Alessandro perguntou finalmente, com a voz mais baixa, menos confiante, mais humana.
Ali estava o verdadeiro medo.
O mesmo homem que enfrentava ministros e executivos internacionais com argumentos afiados e convicção inabalável estava aterrorizado com a hipótese de uma única mulher balançar a cabeça negativamente.
Inclinei-me levemente para frente, apoiando os cotovelos na mesa, unindo as mãos como faço quando analiso cenários complexos.
— Ela pode dizer que quer pensar. Pode dizer que esperava algo mais espontâneo. Pode perguntar por que você demorou tanto. Pode até questionar o local escolhido.
A cada possibilidade apresentada, a expressão de Alessandro se transformava gradualmente em um retrato clássico de desespero masculino, os músculos do maxilar se contraindo, os olhos piscando com mais frequência.


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