"Ele nunca temeu perder um império. Temia apenas o dia em que colocaria o próprio coração sobre a mesa."
Damian Cavalari
Foi ali, entre uma caixa de veludo aberta sobre a madeira impecavelmente polida da minha mesa e um sorriso debochado sustentado com confiança excessiva, que compreendi com absoluta clareza que o assunto havia deixado de ser o pedido de casamento da minha irmã.
Até poucos segundos antes, o centro da conversa era Beatrice, o nervosismo de Alessandro, o brilho calculado da joia que simbolizava compromisso. Mas algo mudou no instante em que ele me observou não como cunhado, não como aliado, mas como homem.
O alvo agora era eu.
O ar no escritório parecia o mesmo, a luz atravessava os vidros do mesmo modo, os relatórios continuavam alinhados com precisão cirúrgica sobre a mesa, mas havia uma alteração sutil na atmosfera, quase imperceptível para qualquer outra pessoa, que apenas dois homens acostumados a ler o outro em silêncio saberiam identificar.
— Quero só ver quando for a sua vez, Cavallari.
Ergui uma sobrancelha lentamente, não como reação impulsiva, mas como gesto calculado de quem avalia uma jogada antes de responder.
— Minha vez?
Ele não desviou o olhar. Sustentou a provocação como quem segura uma lâmina pelo cabo, pronto para girá-la.
— Quando você for pedir a mão da Elena. Quero ver se esse seu discurso racional e estatístico continua intacto quando estiver segurando uma caixa de veludo.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Não houve tensão constrangedora, nem a necessidade de quebrá-lo.
Foi revelador.
Porque, pela primeira vez naquela manhã, a imagem que se formou na minha mente não foi a de Alessandro ajoelhado diante de Beatrice, nem a de minha irmã emocionada aceitando o anel.
Foi a minha diante de Elena.
A nitidez da cena me atingiu com uma precisão quase incômoda. E, ao contrário do que qualquer homem orgulhoso poderia admitir, a ideia não me pareceu absurda.
Muito pelo contrário.
Um canto da minha boca se curvou lentamente, não em ironia, mas em reconhecimento.
— Quando chegar a minha vez — respondi com calma absoluta — não haverá ensaio.
Alessandro não saiu, não imediatamente.
Ele permaneceu ali, apoiado no batente da porta, analisando cada nuance da minha expressão com aquele meio sorriso perigoso que ele usa quando percebe que acertou exatamente onde queria atingir, e o silêncio que pairou entre nós deixou definitivamente de ser sobre Beatrice, sobre o anel ou sobre a noite que o aguardava.
Passou a ser sobre mim.
— Não haverá ensaio? — ele repetiu, atravessando a sala novamente com passos mais firmes, como se o nervosismo anterior tivesse sido substituído por diversão genuína e uma curiosidade quase científica. — Interessante.
Mantive a postura relaxada na cadeira, mas meus olhos não desviaram dos dele por um único segundo.
— Extremamente.
Ele parou diante da minha mesa, apoiou as mãos na madeira escura, inclinando levemente o corpo para frente como se estivesse prestes a apresentar uma tese irrefutável diante de um conselho administrativo.
— Se o pedido de namoro já foi cinematográfico daquele jeito — começou, com a voz carregada de ironia elegante — imagino sinceramente como será o pedido de casamento.
Minha expressão permaneceu imutável, mas ele continuou, sentindo que havia conquistado terreno.
— Você já usou luzes, música, um teatro inteiro reservado, Cavallari? Agora o que pretende? Comprar metade de Milão só para garantir o cenário perfeito?
Clara, que fingia organizar o tablet enquanto claramente acompanhava cada palavra com atenção disfarçada, baixou o olhar para esconder o sorriso que insistia em surgir no canto dos lábios.
Descruzei os braços lentamente, gesto que não era defensivo, mas deliberado.
— Você está projetando suas inseguranças no meu futuro.
Ele riu baixo, balançando a cabeça.
— Não, eu estou projetando sua personalidade. Você não faz nada pela metade. Nem negócios. Nem relacionamentos. Muito menos promessas.



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