“O perigo raramente chega gritando. Ele se aproxima educado, observa em silêncio… e espera.”
Elena Rossi
Há encontros que não precisam de apresentação para deixarem marcas, porque o corpo reconhece a ameaça antes mesmo que a mente consiga nomeá-la.
Quando Beatrice retornou pelo corredor do restaurante, ajeitando a bolsa no ombro e sorrindo com aquela leveza despreocupada que sempre parecia iluminar o ambiente ao redor dela, eu já havia recuperado a postura e recomposto a expressão, mas não consegui impedir que seus olhos atentos percebessem o que eu tentava esconder.
Ela diminuiu o passo à medida que se aproximava da mesa, e o sorriso perdeu um pouco da espontaneidade ao encontrar meu rosto.
— Elena… — disse com cuidado, inclinando-se levemente. — Você está pálida. Aconteceu alguma coisa?
Eu respirei fundo antes de responder, sentindo o esforço consciente de manter a voz estável enquanto minhas mãos permaneciam apoiadas sobre a bolsa, como se precisassem de algo físico para não denunciarem o leve tremor que ainda me percorria por dentro.
— É só um mal-estar, acho que é o calor. — respondi, oferecendo um sorriso que se sustentava mais pela vontade do que pela convicção.
O restaurante estava perfeitamente climatizado, o que tornava minha desculpa frágil demais para ser convincente, mas Beatrice, embora me encarasse com atenção e uma preocupação evidente nos olhos, decidiu não pressionar.
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos, como se estivesse avaliando até onde deveria insistir, e então suavizou a expressão.
— Então vamos embora. — disse, retomando o tom leve. — Maria comentou que vai preparar um jantar especial hoje à noite, e eu estou morrendo de saudade da minha princesinha Sophia.
Eu ri, desta vez com um pouco mais de naturalidade, ainda que por dentro o desconforto permanecesse como uma sombra silenciosa.
Levantei-me da cadeira com cuidado, ajustando o vestido e segurando a bolsa com firmeza, e antes de me afastar da mesa permiti que meu olhar, quase involuntariamente, deslizasse pelo restaurante em busca de qualquer sinal da mulher que havia se aproximado de mim.
Não a vi.
Nenhuma silhueta. Nenhum cabelo castanho refletindo a luz. Nenhum olhar cruzando o meu.
O ambiente parecia absolutamente normal, como se aquele encontro tivesse sido apenas um detalhe irrelevante dentro de um almoço comum.
Mas o arrepio que havia subido pela minha espinha não tinha sido imaginação.
Caminhei ao lado de Beatrice até o carro, mantendo a postura ereta, o sorriso educado, enquanto ouvia ela contar animada sobre o evento beneficente da próxima sexta-feira, sobre como iria homenagear a mãe e o quanto estava feliz.



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