“O perigo raramente chega gritando. Ele se aproxima educado, observa em silêncio… e espera.”
Elena Rossi
Há dias em que você volta para casa acreditando que o pior já ficou para trás — mas é justamente quando cruza a própria porta que percebe que algumas ameaças não ficam do lado de fora. Elas entram com você.
Em silêncio.
Quando o carro parou diante da mansão, eu ainda sentia o eco daquele sorriso atravessando meus pensamentos como uma lâmina fina demais para deixar marcas visíveis, mas afiada o suficiente para cortar por dentro.
Respirei fundo antes de sair. Eu precisava entrar sorrindo. Precisava agir como se nada tivesse acontecido.
Assim que atravessamos a porta, a energia da casa me envolveu de imediato, quente, viva, quase barulhenta demais para o estado silencioso da minha mente, e antes que eu pudesse organizar qualquer pensamento, Sophia surgiu correndo pelo hall com Spok logo atrás, as patinhas deslizando no mármore enquanto ele latia animado.
— Tia Bia! — ela gritou, abrindo os braços.
Beatrice mal teve tempo de largar a bolsa antes de se abaixar e encher minha irmã de beijos no rosto, fazendo Sophia gargalhar alto, aquele som puro que sempre parece reorganizar o mundo ao redor.
Spok começou a pular em círculos, rodopiando entre nós como se estivesse organizando a própria recepção oficial, e eu sorri… um sorriso verdadeiro dessa vez, sentindo o coração aquecer ao ver Beatrice abraçando Sophia com aquela devoção espontânea que ela tem, como se cada reencontro fosse uma celebração.
— Você precisa ver o que o Spok aprendeu! — Sophia anunciou, com os olhos brilhando de expectativa. — Ele já sabe sentar sem eu repetir duas vezes!
— Isso é uma evolução histórica — Beatrice respondeu com exagero dramático, colocando a mão no peito. — Eu preciso ver isso imediatamente!
Sophia a puxou pelas mãos, mas antes de se deixar ser arrastada, Beatrice se aproximou de mim com passos mais lentos, o sorriso ainda presente, porém os olhos atentos.
— Elena… — ela perguntou em voz mais baixa. — Está realmente tudo bem?
Por um segundo, o restaurante voltou inteiro à minha memória.
O olhar.
O comentário sobre o anel.
Aquele sorriso calculado.
Eu forcei leveza na expressão.
— Sim — respondi, inclinando o rosto com naturalidade ensaiada. — Só estou com calor. Vou tomar um banho e já desço.
Ela sustentou meu olhar por um instante, como se buscasse fissuras, mas então assentiu.
— Está bem. Mas não demore. Quero você aqui quando o Spok fizer história.
Eu ri, e Sophia, impaciente, puxou Beatrice escada abaixo novamente, enquanto eu fiquei parada por alguns segundos observando aquela cena simples e feliz, tentando me agarrar àquela sensação de normalidade.
Subi as escadas devagar. Cada passo ecoava mais alto do que deveria.
Quando empurrei a porta do quarto que eu dividia com Damian, meu coração acelerou de imediato, não por medo, mas pela lembrança que me atingiu antes mesmo de eu atravessar completamente o limiar.
Os lençóis ainda estavam levemente desalinhados. O travesseiro dele afundado do lado direito. A colcha dobrada de maneira imperfeita.
E a memória da manhã veio inteira, vívida, quente.
As mãos dele percorrendo minha pele. O riso baixo contra meu pescoço. O jeito como ele havia sussurrado meu nome como se fosse algo precioso demais para ser dito em voz alta.
Só senti braços fortes envolvendo minha cintura por trás, e o calor do corpo dele contrastando com a água fria, e meu choro falhou por um segundo.
Ele ficou imóvel por um instante, como se estivesse entendendo a cena antes de agir, e então senti o corpo dele se tensionar quando percebeu que eu estava tremendo não por causa da temperatura.
Com delicadeza, ele virou meu corpo e seus olhos me examinaram com cuidado e preocupação.
— Princesa… — a voz saiu mais grave, preocupada. — O que houve?
Eu não consegui responder, porque as palavras pareciam pequenas demais. Em vez disso, me joguei contra ele, envolvendo-o com força, enterrando o rosto no peito dele, sentindo o coração dele bater firme sob minha bochecha.
— Nada… — sussurrei, mesmo sabendo que ele não acreditaria completamente. — Apenas me abraça.
Ele não insistiu, não interrogou, não exigiu explicações.
Apenas me apertou contra ele com uma firmeza protetora que fez meu corpo inteiro relaxar aos poucos, uma mão espalhada nas minhas costas, a outra segurando minha nuca com cuidado, como se estivesse protegendo algo delicado demais para o mundo tocar.
Ele inclinou a cabeça, beijando meus cabelos molhados.
— Eu estou aqui — murmurou contra minha pele. — Sempre.
E naquele instante, mesmo com a insegurança ainda respirando dentro de mim, eu entendi que o medo não vinha da falta de amor.
Vinha do excesso dele.
Porque quando você ama um homem como Damian Cavallari, você não teme apenas perder o que tem.
Você teme que o mundo perceba o valor dele… e decida tentar tomar.

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