Damian Cavalari
A primeira coisa que percebi não foi o vento entrando pelo salão, nem o murmúrio dos funcionários, foi ela.
A silhueta dela atravessou a porta lateral como uma falha na minha armadura. Eu não deveria notar, não deveria me importar, nem sentir absolutamente nada.
Mas senti.
Mesmo que eu tivesse conhecido Elena há exatamente dois dias, havia algo nela que me desestabilizava de maneiras que eu não admitiria nem sob tortura.
Dois dias e ainda assim o impacto dela parecia velho, enraizado, familiar demais. Ela mexia comigo num nível que eu não permitia que ninguém alcançasse. E isso, essa irritação absurda que queimava sob minha pele, era a prova mais clara de que eu precisava manter distância emocional.
Mas distância emocional não era algo que Elena Rossi facilitava.
Ela caminhava rápido pelo corredor, com os ombros tensos, a respiração curta, o vestido leve tremendo com o movimento do corpo. E eu ainda conseguia ouvir, como um eco indesejado, a minha própria voz detonando a pouca armadura que ela tentava construir:
“Você tenta ser forte… mas está longe disso esta manhã.”
Eu esperava que aquilo me trouxesse satisfação, força, controle. Sempre trouxe, com todos, mas com ela… Não trouxe nada disso.
Trouxe incômodo, raiva, uma frustração quente, viva, que eu não deveria sentir por alguém que, aos olhos do mundo, e especialmente aos meus, deveria ser apenas mais uma peça no meu tabuleiro. O tipo de frustração que revela fraquezas que eu não tolero em mim mesmo.
Ela virou a esquina e desapareceu de vista e isso me irritou ainda mais.
Meu maxilar travou, tão forte que quase ouvi o estalo do osso. Eu odiava perdê-la de vista. Odiava não saber o que ela estava pensando. Odiava que o simples ato de caminhar para longe já desencadeasse em mim uma onda de alerta instintivo, um impulso territorial que eu não sentia desde… Valentina.
E foi isso que acendeu a sirene mais perigosa dentro de mim. Porque Elena Rossi mexia com os meus sentidos da mesma maneira que Valentina um dia mexeu. E justamente por isso, exatamente por isso, eu a mantinha sob vigilância.
Porque desde o momento em que eu a vi pela primeira vez, naquele palco, sob as luzes cruéis do leilão, algo saiu do lugar dentro de mim. Ela estava imóvel. Frágil, mas não derrotada. Assustada, mas queimando por dentro com uma força que ela mesma nem reconhecia.
E quando aqueles olhos verdes encontraram os meus pela primeira vez, o golpe veio direto no peito. Eu não acreditava no destino, mas a necessidade que surgiu em mim, absurda, feroz, possessiva não era algo que se sentia por acaso.
Foi uma necessidade tão violenta que eu soube, no mesmo instante, que ninguém seria capaz de ir tão longe quanto ela estava indo por amor.
E aquilo me enfureceu. Porque o amor destrói, mata, cega, faz escolhas estúpidas, sacrifica o que não deveria ser sacrificado. Eu tinha aprendido essa lição da pior maneira possível.
E no entanto… ali estava ela. Uma estranha, uma mulher que tinha coragem o bastante para vender a própria liberdade em troca da vida de outra pessoa.
E isso, para mim, era um convite, um desafio. Uma lembrança de que, se eu quisesse me provar, se eu quisesse provar ao mundo inteiro que amor é uma fraqueza que destrói, Elena Rossi seria o exemplo perfeito.
O teste perfeito, a peça perfeita e ao mesmo tempo, a mais perigosa. Porque enquanto eu a observava desaparecer no corredor, senti o meu estômago embrulhar de um jeito que eu não sentia havia anos.
Não era desejo, muito menos proteção. Era irritação. A pior forma de atração, a mais difícil de controlar e foi naquele segundo, enquanto ela fugia do meu olhar sem perceber, que eu entendi:
Elena Rossi não era uma peça que eu comprei era a ameaça que eu precisava dominar antes que ela me lembrasse demais de quem eu fui, ou pior, do que eu ainda podia ser.


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