“O mundo conhece o homem que veste a gravata. Mas só ela conhece o homem que a desata.”
Damian Cavallari
Há batalhas que exigem estratégia.
E há manhãs que exigem coragem para sair da cama.
Eu despertei antes dela, ainda envolvido pelo calor do corpo que dormia aninhado ao meu, e permaneci imóvel por alguns instantes, apenas sentindo o peso leve da perna dela sobre a minha e o ritmo calmo da respiração que subia e descia contra meu peito, como se o mundo inteiro tivesse decidido desacelerar para não nos incomodar.
A luz da manhã ainda era tímida, azulada, entrava pelas frestas da cortina e desenhava sombras suaves sobre o quarto. Eu aproveitei aquele silêncio raro para observá-la sem pressa. Os cabelos ruivos estavam espalhados pelo travesseiro de forma quase caótica, alguns fios repousando sobre a bochecha, outros presos sob o próprio corpo, e os cílios projetavam pequenas sombras delicadas sobre a pele clara enquanto ela dormia com uma expressão tão tranquila que chegava a ser perigosa para o meu autocontrole.
A mão dela estava apoiada no meu peito, os dedos levemente curvados como se, mesmo adormecida, precisasse confirmar que eu ainda estava ali.
Eu sorri, sentindo o peito apertar de um jeito que não tinha nada a ver com desejo e tudo a ver com pertencimento.
As lembranças da noite anterior vieram com nitidez desconcertante: o jeito concentrado dela na cozinha, o riso quando eu a provocava, a macarronada que me surpreendeu, o vinho, os beijos roubados entre uma panela e outra, o calor crescente que nos levou do balcão ao quarto, e o modo como ela sussurrou meu nome como se aquilo fosse uma confissão.
Inclinei-me devagar e beijei sua testa, demorando meus lábios ali, aspirando o perfume leve que ainda permanecia na pele dela.
Ela sorriu, mas não abriu os olhos. Apenas se aconchegou um pouco mais contra mim e murmurou algo quase inaudível, um som suave que soou perigosamente como um pedido para que eu não me afastasse.
— Eu preciso ir, princesa — sussurrei, embora soubesse que ela provavelmente não estava ouvindo de verdade.
Com cuidado para não despertá-la completamente, afastei-me, sentindo imediatamente a ausência do calor dela, e caminhei até o banheiro, onde a água fria me trouxe de volta à realidade das reuniões, contratos e decisões que me aguardavam.
Quando saí, envolto apenas na toalha, o quarto ainda carregava o cheiro dela misturado ao aroma leve do vinho da noite anterior, e por um instante considerei voltar para a cama e ignorar completamente a agenda.
Abri o closet, escolhi o terno escuro com movimentos quase automáticos, mas não desatentos, vestindo a camisa branca enquanto observava pelo espelho o corpo dela ainda enroscado nos lençóis.
Eu estava ajustando os punhos quando notei, pelo reflexo, que ela começava a se mover.
Os olhos verdes se abriram lentamente, ainda enevoados de sono, e ela piscou algumas vezes antes de focar em mim.
— Amor… você já está de pé? — perguntou com a voz rouca, arrastada, como se cada palavra ainda precisasse atravessar o sonho.
Eu me virei completamente para ela, deixando que o sorriso surgisse sem esforço.
— Já, princesa. Tenho uma reunião logo cedo.
Ela fez um pequeno bico, quase infantil, enquanto se apoiava em um dos cotovelos, e o lençol escorregou levemente pelo ombro.
— Tão cedo assim? — murmurou, franzindo a testa de leve.
Caminhei até a cama e me sentei ao lado dela, afastando os cabelos do rosto com um gesto lento, permitindo que meus dedos percorressem a linha da mandíbula até o queixo.
— Princesa… — murmurei, com a voz ficando mais grave — assim fica realmente difícil ir trabalhar.
Ela seguiu meu olhar, percebeu o que havia acontecido e corou de imediato, puxando o lençol de volta com um gesto rápido.
— Damian! — reclamou, mas o sorriso denunciava que não estava verdadeiramente indignada.
Eu inclinei a cabeça, divertido.
— Mais tarde… — sussurrei, deixando a promessa pairar entre nós.
Ela balançou a cabeça, fingindo reprovação, mas os olhos brilhavam. Deitou-se novamente, abraçando o travesseiro, enquanto me observava terminar de me arrumar, enquanto o seu olhar percorria meu corpo com a mesma intensidade que eu havia usado minutos antes.
Vesti o paletó, ajustei a gravata e, antes de atravessar a porta, voltei até a cama mais uma vez. Inclinei-me sobre ela, apoiando uma das mãos ao lado do rosto dela.
— Eu te amo — disse com firmeza, sem jogos, sem provocação.
Ela fechou os olhos, sorrindo de um jeito sereno que sempre me desmontava.
— Eu também — respondeu, ainda abraçada ao travesseiro, como se aquela fosse a resposta mais natural do mundo.
E enquanto saía do quarto, levando comigo o peso do terno e das responsabilidades que me esperavam, eu soube com absoluta clareza que nada do que acontecesse lá fora teria poder suficiente para me abalar, porque o que realmente importava continuava ali, entre lençóis amassados, fios ruivos espalhados no travesseiro e um “eu também” sussurrado com os olhos ainda fechados.

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