“Nada abala mais um amor do que uma pergunta simples: Você tem certeza de que conhece quem está ao seu lado?’”
Existem mulheres que choram quando perdem um homem.
Outras preferem esperar até encontrar a maneira certa de destruí-lo.
Valentina sorriu de canto.
— Elena… — repetiu, como se testasse o nome na língua, como se o nome fosse um sabor que ela ainda não tinha decidido se era amargo ou irritante. — Sim. Eu vou provocá-la.
A amiga inclinou a cabeça.
— Por quê?
Valentina deu de ombros, mas o gesto não era casual, era uma encenação, um disfarce de indiferença.
— Porque ela acha que ganhou — respondeu, e ali, por um segundo, o sorriso se transformou em algo mais duro. — Ela anda pela vida como se não existisse passado, como se o que ela tem com ele fosse puro, intocável, definitivo. E eu quero que ela entenda… que nada é definitivo quando você tem um fantasma respirando no seu pescoço.
A amiga analisou o rosto de Valentina como quem procura rachaduras.
— Isso é obsessão.
Valentina inclinou a cabeça novamente, e dessa vez o olhar ficou mais afiado.
— Não. Obsessão é quando você perde o controle. Eu nunca perco o controle.
A amiga soltou uma risada curta.
— Você dormiu com o seu chefe, Valentina.
Valentina não se abalou.
— Eu usei uma porta de entrada — corrigiu, com tranquilidade. — E eu consegui.
A amiga ficou em silêncio por alguns segundos, e então fez a pergunta que estava guardando desde o início, como uma faca escondida sob a mesa.
— Você ainda ama o Damian?
A palavra “ama” caiu no ar como um peso. Por um instante, Valentina parou de girar a taça. E por um segundo mínimo, algo passou por seu rosto.
Um microssegundo de sombra. Um brilho estranho nos olhos. Uma memória quase involuntária. Mas então ela sorriu. E o sorriso que veio depois não era bonito.
Era frio.
— Amor? — ela repetiu, como se a ideia fosse infantil. — Não seja dramática.
A amiga não desviou o olhar.
— Então o que é isso?
Valentina levou o vinho aos lábios, bebeu devagar, e quando pousou a taça, seus olhos verdes pareciam ainda mais claros sob a luz dourada do bar.
— Vingança — respondeu, calma, sem hesitar, como se estivesse dizendo seu nome.
A amiga permaneceu a encarando. E então disse, com a precisão cruel de quem conhece a verdade antes mesmo que a outra perceba:
— Às vezes eu acho…
Valentina arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— O quê?
A amiga inclinou-se um pouco, a voz diminuindo.
— Às vezes eu acho que no fundo… você tem inveja dessa menina.
Ela inclinou a cabeça com uma calma quase cruel.
— E basta uma lembrança bem colocada para fazer qualquer namorada começar a se perguntar se realmente conhece o homem ao lado dela.
A amiga abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu imediatamente.
Valentina se recostou na cadeira, relaxada, como se o plano inteiro fosse algo inevitável e deixou o silêncio caído por alguns segundos.
Então ela ergueu a taça outra vez.
— Eu só quero que Elena descubra, sozinha, o quanto é fácil se sentir insegura quando o passado resolve sentar na mesma mesa que você.
A amiga observou Valentina por um longo momento. Então, num tom mais baixo, quase triste, disse:
— Às vezes eu acho que você não percebe que está se destruindo.
Valentina piscou lentamente.
E por um segundo, apenas um, o olhar dela vacilou. Mas logo voltou a ser vidro.
— Destruição é o preço de certas vitórias — respondeu.
E então, como se aquela conversa tivesse aberto um espaço que ela não queria sentir, Valentina desviou o olhar pela primeira vez, encarando a rua do lado de fora do bar, onde as luzes da cidade refletiam em vidro e metal como se o mundo inteiro estivesse sempre em movimento.
A amiga ficou em silêncio e Valentina também.
Porque algumas vinganças não chegam gritando.
Elas chegam sorrindo.
E quando finalmente decidem aparecer… quem é que consegue sair inteiro?

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