“O amor mais assustador é aquele que nasce antes mesmo de termos certeza de que ele existe.”
Elena Rossi
O som da pergunta dela continuava ecoando dentro de mim como se tivesse sido sussurrado diretamente contra o meu peito, e não apenas pronunciado ali, naquela mesa de café iluminada pela luz suave da manhã.
— Você tem menstruado?
Eu tentei puxar na memória a última data, o último sinal do meu corpo, quando tinha sido a última vez que eu havia menstruado, mas a verdade se impôs com uma clareza lenta e desconcertante:
Eu não sabia.
Eu, que sempre fui organizada, que sempre acompanhei cada ciclo como quem monitora um relógio interno, havia simplesmente deixado passar, como se as últimas semanas tivessem sido preenchidas por algo grande demais para que eu prestasse atenção aos detalhes do próprio corpo.
Minha mão deslizou, quase sem que eu percebesse, até o meu ventre.
O toque foi leve, hesitante, como se eu estivesse testando a realidade sob a ponta dos dedos, e senti um arrepio subir pela minha espinha ao imaginar que ali, exatamente ali, pudesse existir algo invisível, minúsculo, silencioso… e ainda assim capaz de mudar absolutamente tudo.
— Eu… não sei — admiti, sentindo a garganta apertar enquanto os meus olhos fugiam dos dela por um segundo, como se olhar diretamente para Beatrice tornasse a possibilidade concreta demais. — Acho que não. Quer dizer… eu não me lembro da última vez.
Beatrice ficou completamente imóvel.
Eu vi o momento exato em que a informação se acomodou dentro dela. As pupilas se dilataram, os lábios se entreabriram, e as mãos que seguravam a xícara de café ficaram suspensas no ar por alguns segundos, como se o corpo tivesse esquecido como continuar um gesto tão simples.
— Elena… — ela sussurrou, inclinando-se sobre a mesa, me encarando com os olhos brilhando de uma forma que misturava esperança, incredulidade e uma alegria que ela claramente tentava controlar — você está falando sério?
Eu respirei fundo, e o ar pareceu mais pesado do que o normal ao entrar nos meus pulmões.
— Eu tenho me sentido diferente — confessei, passando a palma da mão pelo ventre outra vez, agora com mais consciência do gesto, como se estivesse procurando alguma resposta na própria pele. — Tenho acordado enjoada, cansada demais, como se tivesse corrido uma maratona enquanto dormia… tenho tido mais… — não tive coragem de completar a frase e corei ao perceber que Beatrice havia entendido.
Ela levou a mão à boca, enquanto seus dedos cobriam parcialmente o sorriso que ameaçava escapar.
Eu vi.
Vi o corpo dela inclinar-se para frente como se quisesse me abraçar ali mesmo, no meio do café.
— Meu Deus… — ela murmurou, e os olhos começaram a brilhar de uma forma quase infantil. — Elena… você pode estar grávida.
A palavra pairou entre nós como algo sagrado e perigoso ao mesmo tempo.
Grávida.
Eu senti o meu coração bater com força suficiente para ecoar nos meus ouvidos, e a ideia, que até então era apenas uma possibilidade distante, começou a ganhar contorno, peso, textura.
Minha mão permaneceu no meu ventre, agora pressionando levemente, como se eu pudesse sentir alguma resposta através do toque, como se o meu corpo fosse me entregar um sinal claro e inequívoco de que algo estava acontecendo ali dentro.
E, naquele instante, o medo veio.
Não um medo raso, mas profundo e cru. O tipo de medo que nasce junto com o amor.

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