Elena Rossi
O helicóptero cortava o céu como um risco escuro contra o azul profundo da madrugada, levando Sofia para o hospital cujo nome eu não ousava pronunciar. Havia um medo supersticioso em mim, uma sensação infantil de que, se eu dissesse em voz alta, poderia profanar o milagre comprado com o que restava de mim.
Fiquei parada diante da janela do saguão, com os dedos pressionados contra o vidro frio, seguindo com o olhar as luzes que se afastavam lentamente até desaparecerem por completo no horizonte. Só então consegui respirar de verdade. O ar saiu em um suspiro trêmulo, pesado, trazendo comigo uma compreensão tardia e inevitável: o que me aguardava não era apenas difícil, era grande demais para ser ignorado.
Sofia estava longe. E eu… estava entregue.
Às uma e quarenta da manhã, um carro preto me esperava diante do prédio. A porta se abriu com um gesto preciso. Entrei sem dizer nenhuma palavra. O motorista permaneceu em silêncio, como se entendesse que aquele silêncio era a única forma possível de respeito naquele momento.
Eu tinha escolhido o meu melhor vestido. Cada detalhe havia sido pensado para ele, como se, de algum modo, minha aparência pudesse servir como forma de agradecimento silencioso por tudo o que ele havia feito por minha irmã. Passei a maquiagem com cuidado excessivo, escondendo o cansaço sob a pele e desenhando nos lábios um tom de vinho escuro que eu não costumava usar. Por fim, prendi os cabelos ruivos num coque alto, elegante demais para quem ainda tremia por dentro. Aquilo não era vaidade, era gratidão travestida de obediência.
A cidade ficou para trás em faixas de luz borradas. Eu me agarrava à bolsa que continha algumas coisas pessoais como quem segura um amuleto quebrado, tentando convencer o coração de que aquilo ainda era escolha e não destino. O tecido do meu vestido de cetim preto, agora menos simples aos meus olhos, colava na pele ainda quente da adrenalina. Os ombros nus tremiam sob o frio que o casaco fino de lã bege mal conseguia conter. As meias translúcidas subiam até o meio das coxas, e os sapatos de salto moderado batiam no assoalho do carro num compasso nervoso, denunciando tudo o que eu tentava esconder.
O reflexo no vidro devolvia uma mulher que eu quase não reconhecia: o batom em tom vinho escuro, os cabelos ruivos presos com rigor naquele coque alto, algumas mechas rebeldes escapando para roçar o pescoço como um lembrete de que ainda havia algo vivo em mim. E, enquanto as luzes da cidade se dissolviam atrás de mim, percebi que cada centímetro daquela roupa era uma armadura disfarçada, meu último gesto de controle antes de me entregar por completo ao homem que havia comprado o meu destino.
Quando os portões de ferro se abriram diante de nós, o som do metal rangendo atravessou meu corpo como um veredito. A mansão no alto da colina parecia mais uma promessa feita de pedra e silêncio.
O carro parou no semicírculo de paralelepípedos diante da escadaria. Um homem de terno escuro abriu a porta. Ele não me olhou, ou talvez tenha olhado, mas sem realmente me ver.
— Senhorita Rossi — disse apenas, em tom cortês. — Por aqui.
Subi os degraus sentindo o perfume da madeira encerada, do couro, e aquele aroma amargo e masculino de especiarias que parecia impregnado no lugar. Cada passo ecoava pelo hall, acompanhando as batidas aceleradas do meu coração. As paredes exibiam quadros discretos, molduras antigas, arte que não buscava atenção, apenas respeito. Tudo ali exalava poder.
No fim do corredor, alguém me aguardava.
Lara.
Por um segundo, esperei encontrar o mesmo rosto neutro de sempre. Mas quando nossos olhos se cruzaram, algo raro atravessou o controle dela.
Um sorriso. Pequeno, contido… mas real.
— Elena… — disse, baixinho, como se pronunciar meu nome daquele jeito fosse um gesto proibido.
Havia sinceridade e alívio ali. Como se, por um instante mínimo, eu deixasse de ser “o contrato” para voltar a ser apenas uma garota que tinha acabado de atravessar o inferno.
— Você veio… — completou, quase num sussurro.
Aquele quase-afeto me desarmou mais do que qualquer frieza.
— Sim. — respondi.
Ela recompôs o rosto rapidamente, como quem guarda uma emoção indevida numa gaveta invisível.
— O senhor Cavallari espera por você. — disse então, mais séria. — Sempre pontual. Ele aprecia isso.
Apertei os dedos um contra o outro para conter o tremor.
Segui atrás dela até a porta dupla. Quando ela abriu, o calor da lareira atingiu minha pele junto com a sensação de atravessar um limiar que não tinha retorno.
A sala era ampla, mas desenhada para confundir distâncias. A lareira ardia com um fogo perfeitamente domado, como se até as chamas soubessem a quem obedecer. Móveis de linhas retas, poltronas de couro e um bar discreto de cristal. As luzes douradas dos abajures projetavam sombras longas nas paredes cobertas por livros.
Tudo ali respirava sob comando.
E então… eu o vi.
Damian Cavallari estava de pé, de costas para a janela com sua postura impecável.
O terno cinza, de corte perfeito, moldava seu corpo com a precisão da alfaiataria italiana cara, daquela que não precisa ostentar para gritar poder. A camisa branca, sem gravata, deixava parte do pescoço exposto, o colarinho aberto sugeria uma intimidade calculada. No pulso, o relógio captava a luz com discrição, não como acessório, mas como extensão natural de quem domina o tempo.
Mas quando ele virou seus olhos azuis me fitaram como se pudessem enxergar a minha alma. Ele me observou por um tempo longo demais para ser educado.
— Elena Rossi… — disse. — Que prazer revê-la.
Meu nome na boca dele soou como algo que eu já não possuía.



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