Elena Rossi
Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
Eu ainda sentia o peso da humilhação da medalhinha repousando sobre a mesa, como se fosse possível ouvi-la ecoar mesmo depois do som seco do metal contra a madeira. Ela parecia viva ali, exposta, testemunha muda da minha ingenuidade.
Respirei fundo e endireitei os ombros. Não para parecer forte, mas porque, naquele momento, desabar não me daria nada em troca. E eu já tinha aprendido, em tempo recorde, que com Damian Cavallari só sobrevivia quem sabia trocar dor por estratégia.
Ele foi o primeiro a se levantar.
O movimento foi lento, controlado, quase preguiçoso. Caminhou até o bar como se estivesse atravessando um território que lhe pertencia por direito absoluto, não apenas a sala, mas o tempo, o espaço… e eu. Cada passo era um lembrete silencioso de que nada ali estava fora do alcance dele.
Pegou a garrafa de uísque, serviu-se com precisão cirúrgica.
O líquido âmbar bateu no fundo do copo de cristal com um som baixo, denso, definitivo. O tipo de som que não pede permissão para existir. Ele girou o copo uma vez entre os dedos antes de se virar novamente para mim, como se aquele gesto fizesse parte de um ritual que ele dominava com perfeição.
— Servida?
A pergunta veio sem convite real. Era provocação pura, um teste disfarçado de cortesia.
Estremeci, mas não me deixei intimidar.
— Eu não bebo.
Ele arqueou levemente uma das sobrancelhas, observando-me como quem analisa uma peça defeituosa que, ainda assim, desperta curiosidade.
— Hum… interessante. — levou o copo aos lábios, bebeu um gole lento. — Não bebe. Não se diverte. Nunca esteve com um homem antes…
Cada frase era dita como se ele estivesse folheando um dossiê invisível sobre mim. Um arquivo mental que ele claramente vinha preenchendo desde o momento em que levantou a mão naquele leilão.
— Ou você aprendeu a mentir muito bem… — continuou, com a voz baixa, perigosa — ou você definitivamente não nasceu no mesmo mundo que eu.
Senti o impacto daquela provocação no estômago. Um misto de revolta, vergonha e algo ainda mais cruel: a sensação de que ele se divertia desmontando cada camada de mim com a tranquilidade de quem desmonta um relógio caro apenas para ver como funciona por dentro.
Levantei-me.
As pernas tremeram, mas sustentei o movimento. Caminhei até o centro da sala, parando a poucos passos dele. Pela primeira vez desde que entrei ali, encarei Damian Cavallari sem baixar os olhos.
— Então me diga, senhor Cavallari… — minha voz saiu firme demais para alguém com o coração em frangalhos — como será daqui para frente?
Ele me observou por alguns segundos longos. Como se saboreasse o momento em que eu finalmente percebi a real extensão da jaula onde havia entrado por vontade própria.
E então… sorriu. Um sorriso de alguém que finalmente tinha sido provocado da maneira certa.
— Que bom que finalmente está começando a compreender o seu verdadeiro papel, Elena.
A palavra papel soou como uma sentença.
Ele voltou até a cadeira com calma. Sentou-se e cruzou as pernas com uma elegância irritante. Deixou o copo repousar entre os dedos como se aquele gesto fosse parte de um ritual particular, um teatro de poder que ele encenava com prazer.
Olhou para o fundo da bebida e depois, voltou os olhos para mim.
— Você vai estar à minha disposição pelo período de seis meses. — disse, com a serenidade de quem formaliza um contrato que já estava assinado muito antes de eu existir para ele. — Isso significa que todas as vezes que eu solicitar a sua presença, você deve estar disponível. Sem atrasos. Sem desculpas. Sem crises morais de última hora.
Meu coração acelerou, mas permaneci imóvel.


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