Damian Cavalari
A porta se fechou atrás de Elena com um som quase imperceptível. Não houve estrondo, nem dramaticidade. Apenas o clique discreto da madeira encontrando o batente e, ainda assim, soou dentro de mim como um disparo.
Por alguns segundos, permaneci imóvel.
Não porque estivesse paralisado, mas porque era assim que eu sempre fazia quando algo ameaçava sair do controle: Eu parava.
O silêncio se instalou pela sala. A lareira continuava acesa. O uísque repousava intocado no fundo do copo. E, entre mim e o vazio, existia apenas a medalha.
Pequena, ridícula e fora de contexto.
Deslizei o olhar até ela. O metal simples refletia a luz do fogo em lampejos irregulares, como se aquele objeto mínimo insistisse em existir naquele ambiente feito de poder, contratos, e silêncio.
Eu deveria ignorá-la. Era isso que eu sempre fazia com coisas que representavam fraqueza, eu fingia que não existiam. Mas, pela primeira vez em muito tempo… eu não consegui.
Levantei-me e cada passo que dei até o pequeno objeto na mesa, parecia mais pesado do que deveria ser. Aproximei-me da mesa e a medalha estava exatamente onde eu havia deixado cair.
“Um santo protetor dos doentes…”— a voz dela ecoou na minha memória.
Fechei os dedos ao redor do objeto e senti o metal frio entre meus dedos. E sem conseguir controlar, outra lembrança surgiu sem pedir permissão.
Valentina.
O nome surgiu sem som, mas com impacto suficiente para atravessar minha alma. Valentina também tinha fé. Também acreditava em símbolos, também carregava pequenos objetos que ela dizia protegerem a alma.
Eu havia rido.
Ela havia sorrido.
Depois… o resto foi ruína.
Meus dedos apertaram a medalha com força suficiente para machucar.
— Nada na vida é de graça… — eu tinha dito a Elena.
Dito como verdade absoluta, como sentença, como se aquela frase fosse a única coisa que me mantinha inteiro. Mas eu sabia. Eu sempre soube que algumas coisas custam mais do que dinheiro.
Afastei a lembrança com violência.
Voltei a mim, à sala, ao presente. Aproximei a medalha da chama e por um segundo, considerei jogá-la no fogo. Derreter aquele símbolo, reduzir a fé a metal líquido. Assistir a mais um ideal virar matéria sem forma. Era isso que eu fazia com tudo.
Mas não joguei.
Abaixei a mão e observei o objeto repousando agora na minha palma aberta. Os traços do santo eram quase infantis. O desenho gasto indicava que aquilo não era novo, aquele pequeno objeto, tinha história.
Ela disse que a mãe havia dado a ela e essa informação fez a minha mandíbula travar. Havia uma ingenuidade em Elena que não combinava com o mundo. Uma honestidade no modo como ela tremia, que indicava que era real o que sentia. Eu conhecia bem mulheres que tremiam por conveniência, elas usavam a ingenuidade para nos enganar e Elena era exatamente assim.
Dei dois passos até a poltrona e me sentei. Observei a medalha sobre a mesa mais uma vez.
— Você só queria aliviar a própria culpa… — eu havia dito.
Tinha sido cruel de propósito. Crueldade é ferramenta quando se quer distância. Se eu a machucasse o suficiente, talvez ela compreendesse de uma vez por todas que ela jamais irá me enganar.
Encostei as costas no encosto da cadeira e fechei os olhos. E, pela primeira vez desde que Elena havia atravessado aquela porta mais cedo, permiti que a imagem dela surgisse sem resistência.
Não o corpo, mas o olhar… a forma como ela levantou a mão para me oferecer aquilo.
Sem sedução, sem barganha, sem jogo. Apenas um pequeno gesto de gratidão… Ela realmente é muito idiota por pensar que eu acreditaria nisso. Aprendi da pior forma, que gratidão não se negocia, se recebe ou se despreza.
E eu… desprezei.
Levantei-me novamente e caminhei até a estante. Puxei a gaveta e dentro havia objetos que ninguém jamais veria, relógios que eu nunca usava, documentos que não estavam em nenhuma base de dados e lembranças que não pertenciam ao homem que o mundo conhecia.
Eu hesitei uma última vez. Então, com um movimento lento, coloquei a medalha ali dentro. Entre segredos, entre coisas que eu nunca admitiria possuir.
Fechei a gaveta e voltei para a lareira. Observei o fogo por mais alguns segundos e lembrei do que havia dito para ela…
O fogo castiga ou purifica.
E, pela primeira vez em muitos anos, não tive certeza de qual lado da chama eu estava.
Peguei o celular e percebi que havia uma mensagem do hospital San Michele. O protocolo de Sofia havia sido confirmado, a cirurgia aconteceria em breve e existia uma grande possibilidade de cura.
Eu deveria me sentir satisfeito. Eu sempre me sentia, mas, naquela noite, a vitória tinha outro gosto.
Elena era como todas as outras mulheres e eu não poderia esquecer disso.
Aproximei o copo aos lábios e disse como se ela estivesse diante de mim.
— Você verá sua irmã…
Eu iria levá-la, porque todas as promessas que eu fazia… eu cumpria. Mesmo as que eu não deveria ter feito.
Enquanto o fogo continuava ardendo, uma certeza incômoda se consolidou dentro de mim:
Elena não era apenas parte de um contrato. Ela era uma variável. E variáveis… sempre mudam o resultado final. Sei que no xadrez e na vida, subestimar a dama é o erro mais caro que se pode cometer. Porque ela não só j**a, ela muda o jogo. Mas o que Elena não sabe, é que no meu tabuleiro, o rei dita as regras, não a dama.
Sorri.
Não para o espelho, nem para a sala, mas para a gaveta fechada e o segredo recém guardado. Para o amuleto que eu jamais deveria ter aceitado, mas mesmo assim… aceitei.

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